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domingo, 27 de janeiro de 2019

MARIANA, A MISERÁVEL


Conhecer a Mariana já seria marcante por si só, mas os sucessivos percalços e dificuldades da minha viagem Lisboa-Porto tornaram única esta ida ao seu atelier. Entrei acelerada, de rompante e quatro horas atrasada na minúscula casa da Mariana que me pareceu um santuário. Nem passámos pela fase de quebra-gelo: desabafei durante mais de trinta minutos encostada no seu sofá e a Mariana, estupefacta e olhando o meu ar alucinado, pôs-se à vontade também.



Quando entramos na casa da Mariana sentimos que estamos no sítio de uma pessoa tímida e silenciosa, onde os objectos têm um lugar definido e que, sendo acolhedor, está moldado à forma da artista. Todas as paredes da sua casa estão cobertas com desenhos e ilustrações. Há pequenas mesinhas com esculturas, materiais de trabalho aos cantos e espaço para uma pessoa só. A sala e a cozinha são a mesma divisão e o seu quarto só tem lugar para a cama.



A Mariana não tem o atelier em casa, tem a casa dentro do atelier e parece que habita dentro de uma ilustração sua. Este minúsculo espaço faz-nos sentir que acabámos de entrar numa realidade irrepetível e não traz a sensação de espaço de trabalho, mas de um trabalho seu propriamente dito. Não me surpreenderia se as ilustrações saltassem da parede e se animassem à frente dos meus olhos ou se a minha cara começasse a encolher e o meu corpo a esticar, como se me transformasse num das suas personagens. Aliás, a própria Mariana parece desenhada por si própria: certeira nas palavras, olhos em forma de lágrima e um bocadinho metida consigo mesma.



Os tectos altos, as paredes muito brancas e iluminadas, o cheirinho a vela a queimar e Tom Jobim a cantar lá ao fundo são a conjugação ideal para nos sentirmos dentro de um desenho.  Tudo está sincronizado para falarmos acerca do trabalho da Mariana, que diz que quando a conhecem esperam uma pessoa triste e uma cara fechada, mas que não é o caso. No fundo da nossa conversa há uma certa melancolia, mas sem lamúria e várias vezes falamos sobre como a tristeza é um sentimento pouco valorizado. A Mariana não sente que glorifique a tristeza, mas que lhe dá atenção quando as pessoas a desprezam, como se fosse proibido dizer-se que se está triste. Diz que a tristeza está em todo o seu trabalho, mas não considera que tenha um trabalho triste.



Tristezas antigas, tristezas infantis, amores perdidos, ansiedades quotidianas e pequenos sobressaltos são o que a Mariana desenha e escreve. O seu trabalho é muito sensível e empático, como se a cada desenho pudéssemos dizer que já sentimos o que ali está mas nunca tenhamos sabido expressar. Desde braços que abraçam o próprio corpo até corpos encolhidos que se escondem dentro de caixas onde não cabem bem, há lugar para toda a melancolia.



A Mariana Santos, que ri no final de cada frase, começou o seu percurso em Design e foi viver para o Porto onde não conhecia ninguém. Da mesma forma que não estava contente com a profissão de designer, também se ia desligando do namorado com quem vivia. Quando a relação terminou, já tinha começado a expor em sítios que não eram lugares óbvios para mostrar trabalho artístico. Começou a desenhar porque não tinha nada a perder e lentamente foi ganhando um traço reconhecível e a estabelecer uma linha de trabalho que tem vindo a evoluir.



O nome Miserável veio do título de uma zine que fez com uma amiga. Sem saber que seria um nome com projecção, Mariana, a Miserável soou-lhe bem e passou a ser a sua marca artística.
Durante a nossa conversa frisa bastantes vezes que é muito bom poder viver como vive, fazendo exactamente o que queria fazer e abdicando de muito pouco. Mas recentemente o trabalho foi excessivo, os seus braços estenderam-se mais do que podiam e a Mariana decidiu que estava na hora de começar a fazer terapia depois de ter passado por uma crise de ansiedade.



Neste ponto a nossa conversa mudou de rumo e passámos o resto do tempo a falar dos benefícios da terapia, que tal como a tristeza, é um assunto estigmatizado. Ir à psicóloga é um salva-vidas que nos devolve o controle, que nos faz prestar atenção a nós próprios e que nos obriga a reavaliar os nossos assuntos. A Mariana ainda não consegue perceber de que forma essas sessões influenciam o seu trabalho, mas como o seu trabalho é construído a partir da sua vida, supõe que sejam determinantes. Às vezes, quando chega ao consultório com a cabeça cheia de problemas, consegue destrinçá-los e olhá-los com distância e mesmo que os problemas não desapareçam, torna-se capaz de lhes pôr ordem.



Este consultório não é o único que a Mariana frequenta. Recentemente participou pela terceira vez no podcast O Fred e a Inês falam de coisas onde a ilustradora dá conselhos amorosos em tom leve, mas nem tão leve assim. A forma como a Mariana fala tem sempre um tom de preocupação com a liberdade que devemos ter para nos sentirmos tristes.



A maioria dos seus trabalhos são feitos por encomenda, mas nos pouquíssimos intervalos vai desenhando e pintando para si própria. Há algum tempo que quer lançar um livro sem texto, só ilustrado por si. Ainda não tem data de lançamento e a Mariana está à procura de editora.


As suas ilustrações dão-nos uma espécie de conforto por sabermos que não estamos sozinhos no nosso sentimento e essa empatia que sentimos quando olhamos para os seus desenhos está em harmonia com a sua forma de conversar, com a sua casa e até com a cidade em que vive. Este atelier é a casa e o espaço de trabalho da Mariana, mas quando passamos a porta estamos a entrar no espaço miserável de cada um de nós.




terça-feira, 16 de outubro de 2018

JOÃO PEDRO VALE e NUNO ALEXANDRE FERREIRA


Andava há mais de um ano a tentar ir ao atelier JOÃO PEDRO VALE (Lisboa, 1976) e do NUNO ALEXANDRE FERREIRA (Torres Vedras, 1973). Quando nos encontrámos no final de Setembro, apanhei-os praticamente de saída para Paris. Subversivos e activistas, consideram-se à margem do meio artístico, mas nem tão à margem assim e a nossa conversa desenrolou-se acerca do seu equilíbrio na circunferência.


Este atelier nas Olaias, em Lisboa, é uma garagem que os próprios terminaram de construir numa zona complicada da cidade. O seu exterior, fechado, com lixo à porta que é atirado pelos vizinhos, não deixa adivinhar que por dentro há um atelier que faz lembrar os bastidores de um teatro de revista. Assim que entrei tive logo vontade de trabalhar só de olhar para a quantidade de adereços, material de pintura, acessórios, mesas e sobretudo espaço, muito espaço para circular ou para dançar se for preciso. O que mais impressiona é a distância que é possível ter de cada trabalho e a facilidade com que somos engolidos por aquele ambiente colorido que é capaz de nos pôr rapidamente a reflectir. Senti que tinha sido sugada para um sítio mágico, de onde podiam sair palhaços por trás das paredes ou majorettes com chapéus de purpurina. Naquele espaço parece que se pode tudo.


Fui recebida por duas caras ternurentas num dia de calor. Ao longo da nossa conversa as ideias de um e de outro foram-se completando mutuamente. São quase vinte e dois anos a namorar e dez anos a assinarem os mesmos trabalhos, por isso é natural que o discurso sobre o trabalho seja semelhante. Mas mesmo assim a forma como se referem às situações dos seus quotidianos dá a sensação que estou a ouvir uma única pessoa muito articulada. Pensam em simultâneo mas não se interrompem e quando discordam, não se atacam, dizem só que sobre tal assunto há outra perspectiva que devia ser explorada. São sobretudo cordiais entre si e terra-a-terra quando conversam.


É raro entrevistar duplas de artistas e ainda mais raro é entrevistar pessoas que fazem questão de dizer que são namorados, que não são só artistas a trabalhar em conjunto. Vivem equilibrados, mas isso só acontece porque não se sentem nem se querem sentir no centro. Esse equilíbrio excêntrico é o que lhes permite viver do trabalho que fazem. Não estão absolutamente "dentro do sistema", quero dizer, não são representados em exclusividade por qualquer galeria, mas trabalham com galerias ocasionalmente, participam em bienais e trabalham muito e com regularidade, sempre com a perspectiva de que nenhum trabalho é para ficar guardado no atelier. É curioso ouvi-los falar porque o João Pedro sente que desde que deixou de ser representado exclusivamente por galerias, trabalha mais livremente. Pagam caro por essa liberdade porque agora têm a seu cargo todo o trabalho de logística e de auto-gestão para além do trabalho plástico, mas dizem que vale a pena porque já nada interfere no que desejam fazer.


Quando começaram a assinar em conjunto, o trabalho tornou-se diferente e sentiram que criaram uma coisa nova, diferente daquela que o João Pedro fazia a solo e compreenderam que se se autorizassem a mudar a forma como se apresentavam e aos seus trabalhos, podiam beneficiar mais do que se só confiassem em galerias para geri-los. Agora conseguiram um equilíbrio entre o que querem fazer e o que se espera que façam.


Medem o sucesso como a capacidade de conseguirem concluir um projecto para ser visto e compreendido por pelo menos uma pessoa. A noção geral de sucesso, dizem, é heteronormativa, machista, cisgénera e branca. Normalmente mede-se o sucesso pela capacidade de construir família, ter uma casa, um emprego, um carro, e naquilo que é considerado "útil" não entram obras de arte ou ser artista. Diz o Nuno que nós somos tão mais bem sucedidos quanto mais compactuarmos com "a máquina" e que é fácil destruir esta ideia fechada e autofágica de sucesso.


A verdadeira medida de sucesso é mais alargada do que tendemos a considerar. O seu sucesso passa a ter em conta a capacidade de fazer os outros pensar e ter liberdade para concretizar as suas ideias, apesar de também considerarem que a liberdade artística é um mito porque também querem fazer as coisas para os outros perceberem. E mais uma vez se levanta a questão da margem: não podem nem querem estar assim tão longe. Não se pode ser demasiado marginal porque senão não se é visto.


De momento este é o seu único espaço de trabalho, mas há algum tempo tinham o Bregas, um atelier em Xabregas que usaram para construir peças grandes, mas que depois deixou de ser necessário. Então pensaram que poderia ser um sítio aberto ao público onde os seus amigos exporiam e fariam residências. Desejaram criar um espaço onde se pudesse criar conhecimento de uma forma descontraída, independentemente do resultado final. O problema foi que nunca pensaram que se tornasse tão popular e a determinada altura, em vez de serem eles a propor quem lá expunha, recebiam propostas. O seu trabalho é sempre curatorial no sentido em que seleccionam e escolhem o que querem mostrar, mas não estavam preparados nem queriam desempenhar um papel destes em relação a outras pessoas. De repente eram curadores e sentiram que tinham entrado num território onde não queriam estar - não queriam ser as pessoas que autorizam ou não autorizam. Por isso o Bregas acabou por fechar.


Tanto o Nuno como o João Pedro falam num tom doce, sem nunca deixar de olhar nos olhos. A nossa conversa desenrolou-se com o meu silêncio gradual, até que eu passei a sentar-me noutra zona da mesa para fotografar melhor e fiquei defronte de dois grandes charriots com fatos coloridos pendurados que contrastavam com a parede preta. Nesta altura, ambos conversaram entre si sobre como era importante trabalhar em equipa. Os mesmos temas são abordados por áreas diferentes e se querem ser ouvidos, não faz sentido utilizar só a sua linguagem para falar acerca dos seus assuntos. É por isso que colaboram muitas vezes com companhias de teatro, de dança ou de outras áreas que sintam que possam acrescentar ao seu discurso.


O João Pedro e o Nuno são artistas estabelecidos e referências importantes, por isso estava curiosa por saber que medos tinham. Responderam-me que têm receio de não compreender o trabalho e as preocupações de gerações que se alimentaram e que tomaram os seus trabalhos como referência. Ao fim ao cabo, têm medo de ficar conformados e não querem ser "bichas assimiladas", como os próprios disseram. É bom fazer parte de uma geração que puxa os limites e é bom que a geração a seguir faça coisas diferentes, que puxe além dos limites e que force a mudança. Ainda bem que continua a acontecer porque o centro tem sempre o seu limite em conta - não o quer, mas alimenta-se dele para se definir e por isso vai buscar quem vive nessa linha. A oportunidade para ser visto e compreendido está aí.


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

HUGO AMORIM



O HUGO AMORIM (Lisboa, 1975) é artista plástico e gravador. Encontrámo-nos no seu espaço na Rua da Bombarda, 12, nos Anjos, em Lisboa, onde conversámos durante duas horas sentados na sua mesa de trabalho.


O espaço onde o Hugo trabalha já foi a fábrica da Farinha 33. O lado direito é ocupado pelo seu projecto MEEL, Press, e a mezzanine pelo trabalho que o Hugo faz em nome próprio. O lado esquerdo, pela artista plástica Cristina Lamas apesar de agora estar em obras, e há uma sala extra à qual o Hugo pretende dar outra vida a partir do próximo ano. 


Quando se entra no seu estúdio e não se conhece o seu trabalho pessoal, é difícil perceber que trabalho é seu e que trabalho é feito por outros artistas. É que o Hugo, além de ser artista plástico, é também gravador e criador da MEEL, Press, Múltiplos E Edições Limitadas, que produz múltiplos  com outros artistas.


O Hugo está numa posição privilegiada. Os artistas chegam para trabalhar, muitas vezes em colaboração, já que o Hugo faz o acompanhamento técnico e muitas vezes ajuda o artista a encontrar soluções. Durante algum tempo - que podem ser dias ou meses - convivem diariamente e passam a conhecer-se de outra forma. Foi assim que criou uma relação com algumas pessoas com quem hoje mantém contacto apesar do trabalho conjunto ter terminado. 


A luz que entra pela sala dentro ilumina a mesa de trabalho e a prensa sem nos ofuscar. Todos os materiais estão ali mesmo à mão, prontos a ser utilizados. Mas o estúdio de gravura não foi sempre neste local; há cinco anos era numa salinha na sua casa em Carcavelos com menos de metade da dimensão desta. 


Não havia nada que fizesse antever esta vida de gravador. Quando terminou o 11º ano, andou algum tempo perdido, sem saber o que fazer. Uns anos mais tarde entrou em Pintura no Ar.Co e interessou-se por gravura mesmo contra todas as probabilidades, já que considerava que esta técnica era aborrecida e antiquada. Quando percebeu que poderia ser interessante, ficou com um pequeno estúdio na escola onde os materiais estavam guardados. Com o tempo chegou a ser professor, mas entretanto nasceu-lhe a filha e o Hugo arranjou emprego mais estável numa empresa de engenharia. 


Mesmo durante essa fase nunca deixou de ter o seu próprio atelier. Entretanto houve um despedimento em massa e o Hugo aproveitou o dinheiro da indemnização para comprar o material que precisava e montou a MEEL, Press.


O Hugo diz que por muito tempo que os artistas passem consigo, ele não se deixa contagiar pelos seus trabalhos ou ritmos de pensamento. Nessas horas a sua função é a de operário, mas o seu trabalho pessoal é absolutamente diferente daquilo que faz com quem o contacta. No entanto há vantagens pelo facto de ter formação artística porque sente que consegue entender a visão dos artistas com quem trabalha.


O Hugo não quer o seu trabalho plástico a conviver com os trabalhos da MEEL porque não o quer mostrar antes de estar terminado, por isso mantém-no arrumado longe do nosso olhar, na mezzanine. Conta que há algum tempo viu um documentário sobre os primeiros bombardeamentos a Londres com Zeppelins durante a Primeira Guerra Mundial. Os grandes projectores de luz que se usavam para localizar estas armas de destruição maciça criavam um cone de luz. O Hugo explorou esta ideia numa série de desenhos feitos a carvão em que ele representa a sombra de um cone de luz, onde o branco do papel sobressai. 


Se lhe pergunto directamente sobre algum trabalho, as suas respostas são evasivas e concentram-se mais nas técnicas que usa e nos projectos em que está a trabalhar. Na série que tem na parede do atelier, papéis pretos dobrados e vincados em sítios particulares como se fossem um origami desmanchado, há um movimento de desconstrução. A luz incide de tal forma que à primeira vista, em vez de se verem vincos, vêem-se diferentes tons de cinzento.


A voz do Hugo torna-se gradualmente mais silenciosa à medida que vai falando sobre o seu trabalho pessoal. Quando estudava Pintura, criticavam frequentemente a sua tendência para acumular muitas cores, muita tinta, e o trabalho tender a tornar-se confuso. A partir daí o seu movimento vem sendo contrário: vai desconstruindo, desmontando e retirando até ficar o essencial.


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

TIAGO MOURÃO


Conheci o trabalho do TIAGO MOURÃO (Lisboa, 1987) há cerca de quatro anos, mas nunca tínhamos conversado. Encontrámo-nos no Martim Moniz, em Lisboa, onde fica o seu atelier, num dia particularmente quente e chuvoso.


O atelier do Tiago é um terceiro andar de um prédio que passa despercebido. Quando se entra dentro da divisão ampla, o espaço divide-se em cinco zonas de trabalho pouco delimitadas. Raramente os horários dos cinco artistas coincidem, mas quando isso acontece, o Tiago sente que beneficia da presença dos outros pintores apesar dos trabalhos serem bastante diferentes.


O Tiago é tímido e apesar da conversa se ir soltando com o passar do tempo, nunca perde a postura rígida e atenta. Nunca diz uma palavra a mais, fala o estritamente necessário para responder a perguntas e não se deixa afectar por eventuais silêncios que vão surgindo. Os seus trabalhos também são assim: tão meticulosos e definidos, que parecem pertencer a um mundo possível ao qual só temos acesso através da sua pintura. A sensação que temos quando estamos no seu atelier, no meio das suas pinturas, é a de que estamos rodeados de objectos que conhecemos mas dos quais ainda não sabemos os nomes.


A sensação de filme de ficção científica dada pelos seus trabalhos é explicada quando o Tiago esclarece que utiliza objectos do quotidiano como modelos do que pinta. Muda-lhes a textura, a cor ou a escala, e ao descontextualizá-los, sobra a impressão de que conhecemos aquelas paisagens de algum lado, só não sabemos bem de onde. O próprio espaço de trabalho também transmite essa sensação de pertença estranha, como se perdêssemos a referência de onde estamos.


Além de pintor, o Tiago trabalha no Museu Berardo, em Belém e vive do outro lado do Tejo, em Almada. Apesar de lhe tirar tempo de trabalho no atelier, o trabalho fora de casa e fora daquilo que pinta dá-lhe mais ritmo e faz com que pinte, paradoxalmente, mais depressa do que se só se ocupasse da pintura. Antigamente criava grandes obsessões à volta de cada quadro que nunca lhe parecia terminado. Uma pincelada a mais podia estragar o trabalho de meses. Agora é diferente: afirma que, como tem menos tempo, não se pode dar ao luxo de querer atingir a perfeição, caso contrário o seu trabalho não se desenvolveria. Não é fácil viver praticamente em três sítios ao mesmo tempo, mas é dessa disciplina que se tem alimentado.


Sendo tão reservado acerca da sua vida pessoal e da sua imagem - nunca partilha fotografias suas ou do que lhe vai acontecendo - perguntei-lhe como é que as pessoas vinham ao seu encontro. O Tiago respondeu-me que vai acontecendo, por vezes há gente que visita o seu atelier e que se interessa exclusivamente pelo seu trabalho, além de que agora é representado pela MCO Arte Contemporânea, no Porto.


Apesar da localização, este atelier é silencioso. O Tiago costuma ouvir música enquanto trabalha e a verdade é que ressoa no espaço. Por vezes, títulos ou excertos de músicas transformam-se em títulos de exposições ou de trabalhos, como é o caso de The Grass is Greener On The Other Side. Ao longo da nossa conversa fui sentido que estava cada vez mais dentro de uma bolha, como se estivesse dentro de uma pintura sua. É fácil estabelecer uma ligação com o Tiago porque ele consegue ultrapassar a conversa de circunstância e focar-se naquilo que quer realmente dizer, que é também o que acontece com o seu trabalho.


À medida que a conversa foi descomprimindo, o Tiago falou-me sobre por que começou a pintar o fundo sempre de preto. Teve um grande desgosto e só lhe apetecia esta cor. Quando olhou, percebeu que do desgosto tinha saído uma descoberta: as cores vibravam mais sobre a base preta e davam-lhe a aura que ele procurava. Passada a tristeza, as bases mantiveram-se negras.


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O Instagram do Tiago é imperdível. A sério, é mesmo!
E este é o seu site, agora actualizado.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

MANUEL SAN PAYO

Encontrei-me com o MANUEL SAN PAYO (Lisboa, 1958) à porta da Galeria Monumental em Lisboa. É o dono deste espaço de exposições, é professor de desenho na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL), tem um pequeno atelier no mesmo edifício da galeria e vive num dos andares do prédio.


Entrámos pela portinha do atelier ao lado da porta da galeria, que revelou uma sala rectangular com uma parede forrada a estantes com livros, mesas desarrumadas, pinturas, desenhos e objectos variados. Só havia espaço para andarmos em linha recta até à porta do fundo que se abre para a Monumental, mas mesmo assim detivémo-nos ali algum tempo.


É entusiasmante falar com o Manuel, que é afável e conversa muito sem maçar. É bastante enérgico e parece que está sempre desperto, com os olhos muito abertos, ao mesmo tempo que é paciente. Qualquer sítio para onde olhe é um estímulo para falar de determinado assunto e muitas vezes os temas atropelam-se na conversa porque há tanto para dizer. É espantoso ver como é rápido e fluído a falar, conversando como quem desmonta matrioskas. Parecia que estava perante uma pessoa com dois pares de olhos, uns para dentro e outros para fora, uns melancólicos e pesados, outros leves e cheios de vivacidade.


Costumo ver no seu instagram (@dr_stealdare ) e no seu facebook as fotografias que tira ao diário gráfico e os desenhos que faz no iPad. Quando falei nos desenhos digitais, disse-me que gostava muito de desenhar assim, que era fácil, já estava habituado e tinha uma série de aplicações instaladas  que faziam mais ou menos a mesma coisa. Num rápido 'queres ver?' e sem esperar pela minha resposta, jogou as mãos aos bolsos do casaco para de lá saírem agarradas aos dedos umas seis ou sete  canetas e lápis como se fossem lanças. 'Olha, não encontro a caneta do iPad! Deixa ver aqui...' e no outro bolso outras tantas.


Os diários gráficos são também aquilo a que se dedica diariamente. A sua tese de doutoramento recebeu o título "O desenho em viagem: álbum, caderno ou diário gráfico, o álbum de Domingos António Sequeira", onde o Manuel afirma que se quer o álbum de artista como uma presença constante e que o diário gráfico se torna num suporte cúmplice e coincidente com o quotidiano. Não é preciso segui-lo há muito tempo para perceber que as suas acções subscrevem esta ideia, já que praticamente todos os dias fotografa aquilo que desenha e "posta" sob o título 'caro diário'.


Há um diário gráfico pelo qual tem estima especial. O seu avô, vindo da aldeia de Sampaio no Minho, emigrou com a mulher e as duas filhas a bordo de um navio transatlântico. Alterou o seu apelido para o nome da terra de onde vinha, distorcendo a ortografia para San Payo, e durante o tempo em que esteve embarcado foi desenhando no seu próprio diário. Não é que fosse um diário especialmente bem desenhado, mas o avô tinha interesses variados e o desenho era um deles.


Saímos da pequena sala rectangular e eu percebi que este atelier não tinha espaço físico. No caso do Manuel, o atelier não existe porque qualquer lugar é bom para desenhar ou para fazer experiências. Aquela sala anexa à galeria onde havíamos estado era só um local de passagem e de consulta, não era um sítio para se estar, muito menos para se ficar a trabalhar.


A parte da Galeria Monumental aberta ao público é só o rés-de-chão do edifício que faz jus ao nome. Herdado, alguns andares do edifício estão arrendados a particulares mas, à medida que vamos subindo as escadas, passamos por um fantástico andar com pé direito invejável, agora em remodelações para se transformar em residências artísticas e ateliers temporários talvez ainda este ano. O Manuel quer dar outra vida àquele espaço e tem em mente um plano em grande. Gostaria que artistas portugueses e estrangeiros pudesses passar ali temporadas, no sítio privilegiado que é o edifício e a sua localização, o próprio Largo Mártires da Pátria, a dois passos de tudo. 


Conforme ia passando pelo meio dos materiais de construção e dos pedreiros, enquanto me surpreendia que ainda houvesse mais uma porta depois daquelas todas que tínhamos acabado de abrir, o Manuel falou-me da estranheza permanente que é ser artista e galerista em simultâneo. No início, há trinta anos, aquele era um espaço mais ou menos degradado onde expôs com alguns amigos depois de ter terminado a licenciatura em Pintura nas Belas-Artes. Entretanto foi-se transformando em galeria e com essa transformação veio o conflito interno acerca do assunto. É como se fosse Deus e Diabo ao mesmo tempo, sem saber muito bem a qual corresponde cada um.


Os artistas não se deviam preocupar com as vendas do seu trabalho - outra pessoa devia conseguir promovê-los e vendê-los e os artistas só se deviam concentrar na produção. O tempo do trabalho plástico é diferente do tempo do mercado da arte, mas realisticamente o artista tem que gerir ambas as coisas. Não é fácil porque implica focos diferentes e frustrações acumuladas. 


É também para mostrar e vender que as galerias existem. Apesar da Monumental estar bem posicionada no bairro, as pessoas dali não entram porta dentro, nem só para ver. As inaugurações estão compostas, mas parece que as pessoas têm medo de entrar na galeria, apesar da amplitude da sala de exposições e do à-vontade com que somos tratados. É também por isso que deseja que o edifício se torne mais do que uma galeria, porque se tiver outro tipo de movimento, acabará por atrair pessoas que neste momento ainda não entram no espaço.


O Manuel disse-me repetidas vezes que adora ensinar, que se sente muito estimulado pelos alunos e também gosta de estimulá-los. Por vezes aparecem mentes muito frescas e é também com eles que tem ideias. No momento desta visita estava a 'fazer gelatinas'. Nem tive tempo de perguntar o que era, porque sem querer já estávamos a caminho de experimentar uma. Disse-me, enquanto fazia um espacinho entre carimbos, canetas e outros materiais, que a gelatina é um excelente meio para fazer  impressão sobre papel porque passa qualquer de tinta que esteja sobre ela. 


Impressionou-me que conseguisse manter dois discursos em simultâneo sobre o mesmo assunto sem se perder e sem me confundir. Enquanto ia descrevendo que estava a desenvolver este trabalho com os alunos, dizia que agora punha ali um bocado de tinta, depois outra camada, e alguns alunos tinham levantado o problema de serem vegan, agora era só passar o rolo para espalhar as diferentes camadas, que a gelatina não era vegan e ele tinha que encontrar forma deles fazerem o trabalho, vamos pôr aqui uma rede que está ali na gaveta do lixo útil, vai lá buscar ali, e passar aqui o diário gráfico para ficar com uma impressão, porque imagina, recusam-se a utilizar gelatina se for feita de animais e o Manuel nunca tinha pensado nisso. Ao final de um minuto, duas ideias, uma impressão e um pequeno desgosto passageiro: 'epá, estas cores ficaram um bocado feias, não foi?'.


Parece que falar com clareza e ensinar lhe é inato e que as ideias o assaltam em catadupa. Subimos para sua casa, mais um andar amplo, em madeira e cheio de luz, onde ficámos a conversar durante uns minutos até nos despedirmos. No dia a seguir iria para uma feira em Espanha, para regressar dois dias depois. Chamou-me a atenção um livro ilustrado de contos do Edgar Allan Poe, que prontamente o Manuel tirou da estante, comentou sobre o óptimo ilustrador e disse: 'leva, leva, lê e depois logo me trazes de volta'. Já tenho um pretexto para regressar.


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