Aba Dropdown

domingo, 16 de abril de 2017

ANA RAFAEL | Atelier Cabine



Fui ao atelier da Ana Rafael há bastante tempo: de facto, quando lá fui da primeira vez, ia com a intenção de visitar o novo atelier do Hugo Bernardo.



Sabia que o Hugo o partilhava com outras duas pessoas, a Marília e a Ana. A ideia seria falar sobre o novo espaço dos três, o Atelier Cabine.



O Atelier Cabine fica nos Anjos e está aberto ao público em dias definidos pelos artistas. Era uma antiga padaria que, com a chegada do trio, foi remodelada e agora é um enorme open-space com zona para joalharia e um amplo espaço sem qualquer divisão física onde a Ana, o Hugo e a Marília trabalham.


A Marília não estava presente e a disposição dos materiais do Hugo era mais ou menos a mesma da de casa, bem como o seu trabalho que, segundo ele, está prestes a dar uma volta. O que me chamou a atenção e foi verdadeira surpresa para mim foi o trabalho e a personalidade da Ana Rafael.


O Hugo trabalha lá ao fundo, a Ana trabalha na zona do meio e a Marília, próxima da entrada. Estar na zona da Ana é estar um pouco entalado, apesar do espaço ser desafogado. Mas é uma zona que está à mercê. Porque a Ana é silenciosa e o seu trabalho minucioso e de movimentos pequenos, não parece importar-se com o grau de exposição. A sensação que o espaço transmite é a de algum contágio, mas os artistas garantem que cada um se ensimesma e não se incomodam uns aos outros.



A Ana é uma artista que trabalha essencialmente com papel, colagens e recortes. Começou em Pintura nas Belas-Artes mas mudou para o Ar.Co porque sentia que precisava de outro tipo de ensino. Uma coisa mais prática, diz ela. Não que a teoria não seja importante, mas o esquema de ensino nas Belas-Artes não era aquele que melhor a estimulava a desenvolver o trabalho que queria fazer.


Repetiu-se ao longo da conversa quando falava da sua relação com os objectos. Dá-se melhor com coisas do que com pessoas, a linguagem é a mesma. Antes, quando estudava na universidade, pintava outras coisas, muitíssimo diferentes daquilo que é o seu corpo de trabalho hoje. Agora, sente que se entende consigo de uma forma mais séria e sincera, também influenciada pela terapia que faz.


O seu espaço de trabalho está repleto de pequenas coisas. Cada canto tem muito para ver, é impossível dar uma vista de olhos rápida. O tempo de olhar para cada recorte é o tempo de olhar para uma coisa que nos é familiar de alguma forma, mas não sabemos bem de onde. Todas as coisas se movem, todas as coisas correm por cima da mesa e mudam rapidamente. Nota-se que tudo está fora do lugar final e que o seu trabalho é de persistência, de insistência. A tentativa e o erro estão à frente dos nossos olhos.


Aquele espaço parece enorme em comparação com a minúcia do trabalho da Ana. Dá-me a sensação de que o seu trabalho foi sempre feito num espaço pequeno e que ele era do tamanho possível. Quando lhe pergunto se acha que o trabalho vai mudar influenciado pelo espaço, responde-me que é possível, mas ainda sem grandes certezas. Precisa só de uma mesa e de uma cadeira. E de não pensar enquanto executa a tarefa de seleccionar imagens e recortá-las. Está ali, numa espécie de transe, e depois logo pensa, logo se torna consciente quando olha para os pequenos objectos.


A Ana falou na capacidade do seu trabalho mudar uma série de vezes. Não significa que não tenha uma base, um movimento que segue numa determinada direcção. Mas essa consciência de si, que a Ana refere várias vezes, não implica que não se deixe ir. Construir um corpo de trabalho, que começa agora a ganhar uma forma mais definida, implica estar à mercê daquilo que lhe acontece e a Ana parece disposta a isso.



É calma e segura a falar. Quando conversamos, primeiro pouco e envergonhadamente, para depois a conversa se tornar reveladora e à vontade, é claro que a Ana está à procura de um ponto de equilíbrio.  Usa aquilo que tem e diz que o que lhe importa é fazer, fazer muito e o máximo que conseguir. O que acontece aos trabalhos depois de estarem concretizados já não lhe diz respeito. Só pode agir num momento, o da execução, e por isso escolhe fazê-lo com o cuidado e respeito devidos.





A zona de trabalho da Ana parece tender a tornar-se um organismo da natureza. Parece poder encontrar-se aí, como às vezes se encontram coisas estranhas. Parece que um humano decidiu mudar-se para a floresta e levou consigo o grau mínimo de humanidade que necessita para se identificar. Fez-me lembrar uma pegada estranha de um animal desconhecido: nada destrói e é uma coisa da natureza, mas sabemos que aquele é o seu lugar e nós é que o estamos a invadir.



_____________________________

A Ana Rafael pode ser contactada através do seu facebook e o seu site pessoal está actualizado! :)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ANA JOTTA

Quando se sobe as escadas de um prédio em Campo d'Ourique, pisa-se um tapete no andar do meio que tem escrito a palavra FIRMEZA. Se continuarmos a subida até ao último andar, as paredes transformam-se em azul-piscina e há uns trabalhos à porta.


A Ana Jotta abre-ma com um sorriso de espanto. Diz-me que aprecia a minha pontualidade, mas que não conta com a precisão das pessoas no que quer que seja. Sem saber, esta frase iria determinar todo o nosso encontro, nem demasiado longo, nem demasiado curto; três horas de conversa a sério, sem floreados ou prepotências. Sem tempo para falar de banalidades nem de coisas que não lhe interessam e com uma noção muito precisa do espaço e do tempo que eu precisei para ir processando o que me dizia, a Ana recebe-me com acolhimento.



O hall de entrada leva-nos até à cozinha, que é sala e que se transforma em quarto também. As portas e as paredes desaparecem por trás de tantas coisas que as cobrem. Os objectos estão dispostos de tal forma que a casa arrumada parece um único rolo de papel de parede com relevo. É muito habitada, muito vivida, e sente-se imediatamente que o tempo em que a Ana vive não é o tempo cronológico. A sua casa é fluída e as divisões podiam ser uma só: as paredes não dividem nada, quase existem por exigência arquitectónica. Mas apesar de não terem a função de divisão, têm a de permanente estímulo visual e é impossível não querer trabalhar naquele ambiente.



O atelier entra quarto dentro, avança pela sala, pelo primeiro andar do triplex e pelo sótão. Uma das coisas impressionantes é a quantidade de espelhos de todos os tipos: ora horizontais, ora verticais, daqueles que aumentam a imagem. Há também de corpo inteiro, novos e antigos. Estão impecavelmente limpos e nalguns momentos podemos ver-nos em dois espelhos em simultâneo. Sobretudo podemos, em qualquer posição, reparar nalguns objectos que não repararíamos se os olhássemos de frente, porque se perderiam no meio dos outros. Os espelhos enquadram esses objectos e por isso podemos isolá-los do todo. São uma espécie de quadros que se metamorfoseiam consoante a nossa posição.



Não há como evitar a sensação de que estou dentro de um gigantesco trabalho. Quando ainda não tinha percebido que a Ana não trabalhava ali - isto é, que não praticava ali o ofício, que aquele não era o espaço da execução plástica - disse-me que aquela era ela. Não era a sua casa, era ela e que não estava a visitar o atelier, estava a visitá-la a si. 

Para atelier, diz que precisa de um espaço com paredes vazias, um chão e talvez uma mesa. É tudo. E que não o tem neste momento porque não trabalha há um ano. 
O tempo pelo qual as exposições se constroem, com a azáfama de transportar trabalhos, ir aos sítios e fazer conversinhas não se coaduna com o tempo de pensar no trabalho, muito menos com o tempo da sua execução. Com uma expressão melancólica, diz-me que há um ano que anda a acumular 'lixo' dentro de si e que aquilo terá que sair assim que possa estar por conta própria. Tem-se ocupado com organização de exposições que, mesmo com o apoio dos curadores, a fazem perder tempo.


Subimos até ao sótão directamente. De repente estamos uma enorme sala escura cheia de reentrâncias. Bonecos estranhos, papéis variadíssimos, pedaços de coisas por todo o lado, coisas que eu nem sei o que eram, iam aparecendo a cada momento. Um sofá de dois lugares ocupava o centro da sala, mas nem sequer se pode falar em centro no sentido estrito do termo porque a cada dois passos meus, estava noutro sítio da sala que me parecia central. Quando a minha perspectiva mudava, via muito mais do que tinha visto antes e o centro onde o sofá estava, aparentemente o local com vista privilegiada, deixava de sê-lo.
Estar em qualquer lado da casa da Ana, mesmo que seja contra uma parede (sobretudo quando é contra uma parede!) é ser imediatamente impelido a pensar e a fazer.


Foi no sótão que conheci a Dezembro. A Dezembro é uma gatinha preta bebé, com quem a Ana fala com doçura. Há muitas fotografias de outros gatos espalhadas pela casa. Não é que não goste de pessoas, mas em geral aborrecem-na.
Outra particularidade da sua casa é a arrumação. Tudo parece ter um lugar e não parece arbitrário. Mas o mais incrível são as camadas: não há um sítio que tenha só aquele objecto, porque se olharmos bem, há outro por trás e mais uns quantos. Até os tapetes se sobrepõem.



O espaço do meio, entre o piso da entrada e o sótão, foi o que a Ana chamou terra de ninguém. É uma espécie de quarto de vestir, onde a roupa só ocupa um pequeno espaço lá ao fundo. Tudo está à vista, está ali mesmo à mão. É por ser tudo cru, por cada objecto ter o aspecto de que a coluna vertebral está à vista, que me senti intrusiva.


O espaço de uma galeria lembra-lhe uma casa mortuária, com as paredes todas despidas. Ou um espaço passado passado a limpo. Quando vê uma parede branca, começa a imaginar naquilo que ela se pode tornar. 
O seu trabalho não é bem ela, porque ela está aqui, a conversar comigo. O trabalho é o trabalho, que vem dela. Uma pessoa não se expõe, expõe o seu trabalho.


O seu quarto, de paredes verdes e pretas, é luminoso e feliz. Por cima da cama há centenas de imagens, desde postais a fotografias e recortes. Há muitíssimos CD's e a zona da cama faz lembrar aqueles covis que eu construía em criança, com lençóis e cadeiras, onde fazia jogos com lanternas e livros. 


 Quando lhe perguntei de que artistas gosta, elegeu alguns pintores. Adora pintura, a pintura que reduz tudo a uma superfície que achata. Está cada vez mais para dentro. Sai de casa para comprar pão, ir ao cinema e pronto - nem sequer está interessada em ter uma vida social.
É como se a Ana estivesse numa fase de expansão mas admirasse quem percorre o caminho oposto.


Por esta altura eu já pouco falava e a Ana dominava a conversa com entusiasmo. Não havia mais perguntas que lhe quisesse fazer, não porque não me interessasse, mas porque estava boquiaberta com a sensação que o espaço me estava a provocar. A sua casa é feita de restos, de sobras de todos os dias, as coisas que ninguém dá conta e que não conseguem ver. Ela transforma, ela sabe modificar: é uma estação de resíduos sólidos onde se recicla. Fico curiosa acerca do seu critério: o que é que deitará fora? O que poderá subir ao pedestal de já não servir nem para si?


É uma pessoa de muitas palavras e tem sempre coisas a acrescentar. Explica-se e volta a explicar-se com tanta vontade e energia e disse-me que podia olhar para onde quisesse, fotografar o que quisesse, mas que não a filmasse a ela. Podia filmar a casa sem problema algum, mas reparei que sempre que começava a fotografar ou a filmar, a Ana desviava os olhos, brincava com a Dezembro ou ia-se embora daquela divisão.


Ofereceu-me café que eu recusei por cerimónia. Enquanto a Ana o bebericava, ia falando sobre a ignorância e vontade de cultura. Não há cultura, estivemos parados quarenta anos e outros quarenta a tratar de coisas mais urgentes. Não tivemos tempo nem dinheiro. A educação demora muito tempo para se ter e necessita de outros meios que não temos. Não há um verdadeiro ministério da cultura, as bolsas são para inglês ver e orgulha-se de nunca ter precisado do Estado para fazer o que faz.


O seu individualismo é invejável. Não gosta de grupos, de classificações, de ordem imposta ou instituída; não quer fazer parte de nada porque isso não a acrescenta. Já é difícil ser ela própria e não poder deixar de ser quem é.



O seu trabalho, a sua casa, o seu pensamento sempre tão coerente e seguro reafirmam que deixar de ser artista, só quando o corpo lhe falhar.

Felizmente teremos sempre uma Rua Ana Jotta.

::

Este atelier foi publicado no P3!
Lá pode ver-se o mesmo texto com outras fotografias e um vídeo ;)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

MALIA POPPE

É possível ir à cabana do Thoreau a trinta minutos de comboio de Lisboa. Chega-se à Portela de Sintra, anda-se dez minutos de carro por entre arvoredos cada vez mais densos e encontra-se uma casa enorme. Mas em vez de entrar, subimos umas escadinhas até a uma portinhola verde que abre para dentro de uma sala muito acolhedora.
Estamos em casa do Malia Poppe.

Esta é a vista da sua casa.
Eu julgava que o Malia era indiano mas não: nasceu em Lisboa como José Maria. Malia vem do atropelamento dos r's quando era criança e tornou-se o seu nome. Viveu em inúmeros sítios, mas regressou a Sintra, onde foi educado. Apesar de ter 65 anos, tem absoluta consciência da morte e por isso vive muito bem. Suponho que o conforto imediato que senti ao lado do Malia venha da sua absoluta paz de espírito, como se estivesse a conversar com alguém que já morreu, ressuscitou e decidiu aproveitar aquilo que tem. Estar com esta pessoa é ir muito dentro.



Não foi fácil ser Malia: não teve um crescimento simples, não gostava da escola, não se rodeava das melhores companhias. Mas, contas feitas, é um privilegiado por ter uma boa família que é o seu suporte emocional.



Com a morte do pai aos treze anos, teve que mudar de colégio para a mãe conseguir suportar o encargo. Chumbou o primeiro ano na escola nova porque, sendo nas Janelas Verdes, passava os dias no Museu de Arte Antiga. Quis ir para a António Arroio, mas não deixaram: um dos irmãos convenceu a mãe de que ser artista não era vida.



Viveu no Brasil e voltou a Portugal sem nunca trabalhar próximo das artes. Um dia, um dos sobrinhos propôs ir ao dia da criança no Ar.Co. Gostou tanto que decidiu inscrever-se. Fala de todos os professores, que entretanto se tornaram seus amigos, com muita doçura, como se lhes estivesse agradecido por alguém ter visto uma parte sua à qual ninguém tinha prestado atenção.




A sua casa-atelier tem duas portas para a rua, uma em cada lado do minúsculo espaço, como se aquela zona fosse só uma paragem no percurso. O Malia sai e caminha muito, por horas, sem qualquer preocupação. A sua conversa faz lembrar a poesia de Manoel de Barros: muito simples e, também por isso, desconcertante. Sempre no ponto, sem nunca perder o raciocínio. Não tem ânsias de grandiosidade nem é pretensioso: está cá da melhor forma possível.




Contou-me que adora os sobrinhos, que são eles que lhe dão alento. Exactamente no meio da sala está a cadeira que foi da sua mãe, de quem o Malia tomou conta no final da vida. Agora senta-se na cadeira como se se sentasse ao colo da mãe.



Não pode trabalhar muito tempo de seguida, fica com a vista cansada e doem-lhe as costas. Cada risquinho que faz é quase em contra-relógio, sabendo que não poderá desenhar um dia inteiro sem pausas. Então aproveita-o a sério, porque as pausas são obrigatórias. Mas não se sente infeliz quando termina o seu tempo de trabalho; ouve o corpo e vai fazer outras coisas.



A simbiose entre atelier e casa obrigam-no a olhar para o trabalho todos os dias e a estar à vontade com os seus fantasmas. Se antes gostava de sair até tarde, se era uma pessoa festiva, agora deita-se e levanta-se cedo. Está muito confortável com o lugar que ocupa, com aquilo que o seu trabalho é e com a forma como organiza a sua vida.



Há um certo tom melancólico na sua voz, mas também infantil e alegre. Nos seus passeios, vai recolhendo rochas sob um critério só seu. A determinada altura foi até à sua colecção e escolheu uma delas para me oferecer. Essa rocha pousa agora na minha estante, à frente de alguns livros. Vou recordar-me sempre do dia em que me disse que, antes de ser artista, é Malia Poppe e com essa consciência pode ser qualquer coisa.

_______________________

O facebook do Malia é este e vale a pena olhar para este álbum

Para ver Pequenos Formatos de alguns artistas deste blogue, 

Subscreva a newsletter no final deste post!
(não há spam, só ateliers ;) )

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

PEDRO ZAMITH


Fiz de comboio o percurso Campolide-Cascais e o PEDRO ZAMITH ficou de me ir buscar à estação. Tínhamos combinado a visita ao atelier alguns dias antes, que entretanto seria adiada. A nossa conversa já estava condicionada à partida pelo meu entusiasmo, mas eu não esperava o rápido entendimento.



O Pedro vive numa casa grande, colorida e arejada, onde os dois filhos circulam à vontade, inclusive no espaço de trabalho. Divide-se em três pisos: o primeiro e o segundo são de habitação e o rés-de-chão é uma garagem grande com pequenos anexos laterais. Um dos anexos é o espaço do seu atelier.

Assim que se entra, sob uma luz frigorífica, as cores fortes dos trabalhos, as perspectivas que sugam o observador e a frase HELLCOME TO MY WORLD saltam à vista: parece que se entrou numa pequena fábrica de tinta. Alguns trabalhos por acabar, pousados nos cavaletes, outros pendurados nas paredes e uma série de recordações da sua vida pessoal compõem o ambiente.



Para além de artista plástico, também dá aulas numa escola internacional em Cascais durante todo o dia. A meio da tarde, e nas semanas em que não está com os filhos, dedica-se ao desenho, à pintura e à gestão dos projectos que tem pendentes. Durante toda a nossa conversa, nunca percebi quando é que o Pedro dorme: o seu empenho e espírito crítico são invejáveis e os trabalhos são reflexo disso.



Por exemplo, enquanto eu preparava a câmara para filmar, disse-me que ainda não tinha tido tempo de fazer o desenho de natal para colocar no seu facebook, que ia levar os filhos ao jogo do Benfica naquela noite e ainda não tinha comprado os bilhetes, que ia receber um amigo com o respectivo filho dali a umas horas e ainda não lhe tinha avisado que ia sair e que tinha que marcar uma consulta de pediatria. No mesmo tempo em que eu preparei a câmara para filmar e ajustava a luz, o Pedro fez tudo isto. Eu pensei que talvez me tenha cruzado com uma das pessoas mais rápidas e eficazes de sempre.



O seu atelier tem este ritmo: parece que num dia está de uma forma, noutro dia está absolutamente diferente. As cadeiras não têm um lugar fixo, tudo é fluido e os desenhos que não estão concluídos são bons exemplos desta fluidez. Quando lhe perguntei se o seu trabalho só podia ser feito naquele espaço, o Pedro respondeu-me que não, porque o espaço de trabalho era duplo: se por um lado era o do atelier, do género covil, por outro ele é um homem cosmopolita e os personagens que traz para dentro do seu atelier são os clichés do quotidiano. Mas aquele espaço influenciava muito o seu método de trabalho e isso, por sua vez, influenciava aquilo que fazia.



O Pedro só pára de falar quando interrompemos e raramente perde a linha de raciocínio. Utiliza os seus desenhos como exemplo para tudo e uma das questões que se coloca é a de desenhar poucas mulheres. Tem alguns problemas com isso, porque aquilo que absorve delas não são os clichés que capta rapidamente noutras pessoas, mas a sensibilidade e delicadeza. Confessa que talvez possa ser um preconceito, que as mulheres também têm os seus clichés, mas só as utiliza quando pretende formas sinuosas nos seus trabalhos.



A atmosfera do seu atelier não é claustrofóbica, apesar de ser numa garagem. Parece que cada parede se desdobra para dentro dos desenhos expostos e o atelier continua para esses espaços. A sensação é a mesma que tive quando vi uma exposição sua há uns dois anos. Quando se está no seu atelier não se espera ser sugado para dentro dos desenhos grotescos, mas aquilo que é mais impressionante é a sensação de espelho. Todos eles vinham ter comigo e olhavam para mim de uma forma intimidante, como se eu não pudesse ignorar que fazia também parte daquele cenário. Não é assustador, mas a minha capacidade de abstracção funcionou mal. 



Sempre utilizou a perspectiva, desde que se lembra de desenhar em criança; quando chegou às Belas-Artes e aprendeu a desenhá-las com dois e três pontos de fuga, descobriu aquilo que andava à procura. A forma como fala da perspectiva é muito bonita e passa a sensação de que pôde finalmente fazer-nos ver o mundo que só está dentro da sua cabeça.
Mas não foram só as Belas-Artes que lhe moldaram o trabalho: antes disso frequentou a Escola Superior de Teatro e Cinema, no curso de Cenografia e Figurinos. A relação é clara.

Para ouvir o Pedro falar, 

Sem dúvida que o espaço de trabalho do Pedro é motivador. Os trabalhos são definitivamente daquela pessoa. Como diz a determinada altura, 'o meu trabalho só poderia ser feito por mim. As características de cada pessoa estão plasmadas directamente em cada quadro: só não vê quem se recusa'. A sua boa disposição, crítica social certeira e a extroversão transformam qualquer conversa num momento bem passado.


domingo, 11 de dezembro de 2016

ANA + BETÂNIA



A Ana Cruz e a Maria de Betânia conheceram-se no curso de Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Ambas trabalhavam de uma forma diferente mas, como partilhavam o mesmo espaço,  foi inevitável a contaminação de trabalhos. 



A partir daí foi um saltinho: participaram em concursos juntas, faziam parcerias ocasionais e, há dois anos, expuseram pela primeira vez em conjunto na galeria Abraço. Foi nessa exposição que nos conhecemos.


Trabalham em cerâmica, mas não fazem bibelots tradicionais. Foi por isso que criaram a hashtag #NovaCerâmicaPortuguesa, que as identifica no Instagram.
Um dos primeiros trabalhos que vi foi este:


A ida ao seu atelier foi complicada: ambas vivem em Lisboa, mas a maior parte das vezes trabalham em separado, cada uma na sua casa, num pequeno espaço improvisado que se resume às respectivas secretárias; e uma vez por mês vão passar um fim-de-semana a Montemor-o-Novo, onde podem usufruir de um grande atelier e materiais à disposição por um preço simbólico.


Foi nas Belas-Artes que conheceram a professora Virgínia Fróis, que as inspirou. 
A linguagem da Ana e da Betânia foi-se parecendo e ambas trabalhavam temas relacionados com a condição feminina. Em equipa, o seu trabalho desenvolveu-se a grande velocidade.



O atelier é enorme, com uma mesa de trabalho invejável. Cheira a barro por todo o lado, é fresco e a zona, muito silenciosa. Mas, neste dia, tinham Bossa-Nova como banda sonora.
Os fornos estão recheados de pequenas prateleiras. Alguns trabalhos, seus e de outras pessoas, estão dispostos de forma organizada.




A sua energia de trabalho é contagiante: foram raras as vezes que visitei ateliers e os artistas continuaram a trabalhar. Neste caso, não houve nenhum momento em tivessem parado o que estavam a fazer para responder a perguntas ou para conversar, o que fez com que me sentisse à vontade. A sua dinâmica é muito clara para quem olha: poderiam ser um casal de velhotas que viveram toda a vida juntas e que já sabem de cor as manhas uma da outra. Sabem com que contar.


Ambas são sociáveis e conversadoras. Nunca são aborrecidas e estão dispostas a explicar cada passo do processo de trabalho, cada material, por que fazem o que fazem e quais são os seus planos futuros. Neste caso, trabalhar em grupo é fácil: ouvem-se com vontade e quando uma está mais embaixo, a outra salta para a linha da frente e toma conta do duo. 


O ambiente de Montemor também as influencia e isso é assumido por ambas. Utilizaram nalguns trabalhos o barro local, mais difícil de modelar, porque queriam incorporá-lo no que fazem. E não precisam de ir muito longe para encontrarem os cactos que inspiraram algumas das suas peças. 




Suponho que o seu pensamento rápido seja estimulado pelo outro trabalho que ambas têm: no Hospital Júlio de Matos com doentes mentais, orientam oficinas de cerâmica. Esse trabalho requer uma atenção técnica permanente, ao mesmo tempo que conversam e dão referências aos alunos. 
Noutra ocasião, tive oportunidade de visitar o hospital de dia e de vê-las a trabalhar. A postura é a mesma: sempre abertas, corrigindo aqui e ali, mas sobretudo sem qualquer pretensão. 
Também trabalham com crianças - as Oficinas do Convento têm programas que valem a pena  (Montemor é só a 1h de autocarro de Lisboa). Isto é uma mais valia para o seu trabalho: trabalhando com outros, desenvolvem o seu próprio trabalho.



Trabalham de forma livre e sem preconceitos - são despojadas. Isto traduz-se nas formas que esculpem, mas também na facilidade de trato. 
Vale a pena conhecê-las.

_____________________

No Facebook:

.

_____________________

No Instagram:

+