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segunda-feira, 16 de abril de 2018

FÉLIX RODRIGUES



O FÉLIX RODRIGUES (Faro, 1995) está no último ano da licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e o seu trabalho tem vindo a desenvolver-se no atelier mais pequeno que visitei.


Mudou-se em Janeiro para uma casa em Santos, em Lisboa, onde arrendou um quarto de sonho. Paredes brancas, óptima luz a entrar pela janela e um mezanino que permite dividir o espaço em duas áreas, uma para dormir em cima, e outra para trabalhar em baixo. Por baixo da cama está uma secretária, um guarda-roupa dividido em zona para materiais e espaço para roupa, e o mínimo de desarrumação possível. Lembra uma casa sueca ordenadíssima, onde tudo cabe e mesmo assim se consegue manter a arrumação.


Quando passamos a porta do quarto, cabemos em pé ou sentados no chão, que é também onde o Félix - ou Li, como toda a gente o trata - trabalha. Ao fundo, ao canto, há uma janela com almofadas no chão. É o seu local privilegiado para bordar ou desenhar.


Apesar de terminar o curso dentro de uns meses, só agora sente que entrou na lógica da universidade, num trabalho mais ordenado e com sentido. Os primeiros dois anos não foram fáceis: fez umas disciplinas aqui e ali, queria desistir e a adaptação a Lisboa não foi tão simples como pensava. Apesar disso prosseguiu o estudo e é em Lisboa que deseja ficar. Fala com uma certa pena na hipótese de sair das Belas-Artes e pondera tirar o mestrado na faculdade, mas são pensamentos pouco amadurecidos.


Esteve durante um verão em Londres num curso de Pintura numa faculdade e sentiu uma diferença na abordagem ao ensino. Relata que em Lisboa, na FBAUL, há uma certa competição silenciosa. Ninguém fala dela, mas todos sentem o peso, o medo de terem as ideias roubadas, os trabalhos destruídos. Apesar de haver algum espaço, o Félix não consegue trabalhar na faculdade porque é um local pesado, onde se sente observado constantemente.


Em Inglaterra o caso foi diferente. Os colegas opinavam livremente uns acerca dos outros, os professores não se limitavam a franzir o sobrolho e sentiu que recebeu conselhos valiosos acerca do seu trabalho, como por exemplo ser estimulado a fazer coisas diferentes daquilo que insistia em repetir. Diz-me que se pode habituar facilmente ao traço que lhe é mais fácil e só naquela faculdade percebeu que mudar era essencial para enriquecer o trabalho.


Numa das paredes do quarto há um pequeno tríptico com representações suas de Joana d'Arc, São Sebastião e um anjo. Estão pintados dentro do seu esquema cromático: azul, amarelo e vermelho. Deu por si a representar um arco-íris nessas três cores e a repeti-las nos diários gráficos e nos seus trabalhos.


Todas as paredes estão ocupadas por trabalhos em curso, pequenos trabalhos concluídos e sobretudo muita inspiração. A determinada altura puxou de um baldinho de plástico com uma série de doces e estendeu-mos, oferecendo. Quando eu pensava que estava perante um viciado em açúcar, o Félix disse-me que os tinha comprado para desenhar. Ainda não sabia se à vista ou se os ia usar enquanto objectos em trabalhos. Não quis comer um pedaço do trabalho de outra pessoa, por isso controlei o meu impulso.


Antes de se apresentar como se apresenta, o Félix conta que se arranjava seguindo a moda japonesa do estilo  Kawaii . No Japão, apresentar-se como fofinho ou querido é aceite como característica e até desejável para ambos os géneros e o Félix utilizava essa forma de expressão para performar a sua identidade. Agia como quem brinca com o estilo que é altamente produzido e muito auto-consciente. Dessa época aparecem réstias no seu quarto, como uns lenços cor-de-rosa, o seu gosto por flores e por cores opacas e vivas, bem como a sua afinidade por cores pastel.


Adora pintar com guache, apesar de reconhecer que há um certo preconceito com o material. Toda a gente se lembra das primeiras experiências com esta tinta na escola primária, mas quando chegou à faculdade percebeu que o seu poder de cobertura, a textura matte, a ausência de cheiro em comparação com o óleo e o seu preço tornavam o material muito apetecível. Como é que se vende uma pintura a guache? É por ser percebido como material fácil que o Félix sente que os trabalhos que o têm por base são levados menos a sério.


Os seus diários gráficos são um poço de luz e de cor. Ocupa a totalidade da página com flores ou cores garridas e por vezes as páginas servem de diário pessoal. Apesar de ser uma pessoa tímida, o Félix é muito disponível quando aborda qualquer assunto. Está pronto para dizer o que pensa, docemente e sem rodeios. Quando lhe perguntei se não tinha receio que o seu trabalho fosse rotulado como feminino, pelas flores e pelas cores, ele diz-me que não.


Foi depois da última fotografia que me contou que o seu trabalho mudou muito desde há um ano para cá e que não sabe até que ponto isso se deveu à mudança por que está a passar. Durante toda a sua vida, as pessoas viam nele um género que não era o seu e que de facto se sente homem em vez de mulher. Prosseguiu Pintura, está em tratamento hormonal e hoje é oficialmente o Félix, sem receios de pintar e trabalhar acerca de assuntos que sejam identificados com um lado feminino.



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quinta-feira, 5 de abril de 2018

BRUM ATELIER | BEATRIZ BRUM E JOÃO MIGUEL RAMOS



A BEATRIZ BRUM (Ponta Delgada, 1993) sabia que queria ir para Artes antes do secundário, mas como a sua escola não tinha a área disponível, recolheu assinaturas pelos colegas e conseguiu que abrisse o curso que queria. Viveu até aos dezanove anos em São Miguel e quando foi visitar universidades depois de um ano para pensar no que queria fazer, apaixonou-se pelas Caldas da Rainha. Descreve como um momento 'piroso-romântico': chegou às Caldas no final de um dia difícil, olhou para o pôr-do-sol e achou que era ali que pertencia. Licenciou-se em Artes Plásticas na ESAD.CR.


O JOÃO MIGUEL RAMOS (Ponta Delgada, 1994) viveu em Ponta Delgada até aos dezoito anos e tal como a Beatriz foi estudar para o Continente. Licenciou-se em Pintura no Porto, mas o curso desiludiu-o de certa forma porque contava com mais liberdade da parte de professores e colegas. Pensou que precisava de um tempo de pausa depois da licenciatura e regressou a São Miguel. 


Já se conheciam antes da universidade, mas foi quando regressaram a São Miguel e um ano depois de ganharem o prémio Jovens Criadores do festival Walk&Talk que se juntaram e montaram atelier na garagem da avó da Beatriz, na Lagoa. Esta era a antiga carpintaria do pai e do avô, onde se construíam carroças. O espaço está dividido em duas áreas muito luminosas e amplas. 


A área maior pertence à Beatriz e está repleta de pequenas imagens, fotografias, trabalhos terminados e latas de spray com cores fluorescentes. O seu antigo berço é um dos sofás e as cadeiras foram construídas pelo avô. A Beatriz fala muito e sempre com um brilho alegre nos olhos. Diz várias vezes que é muito mexida e que gosta de trabalhar rápido, de testar uma ideia nova a cada movimento e não tem muita paciência para esperar para que a tinta seque. É por isso que usa spray: o resultado fica logo à vista e se não gostar pode sempre deitar fora e começar outra vez, sem grande culpa por ter desperdiçado tempo. 


O seu principal problema é a falta de acesso aos materiais: se acaba uma cor, não tem onde comprar o spray que quer, mas recentemente abriu o AKI em Ponta Delgada e por isso já não precisa de ir tantas vezes ao Continente buscar material que era fácil de encontrar enquanto estudava, apesar de continuar a ser difícil. Mesmo assim não pondera sair de São Miguel tão cedo porque sente que está a começar alguma coisa que tem pernas para andar, além de trabalhar numa instituição ligada às artes. É por ter outro trabalho que se sente mais estimulada e ter o dia dividido entre dois trabalhos fá-la pensar mais e sentir-se mais activa.


O João considera-se romântico. A sua divisão do atelier, mais pequena, com cavaletes e paredes ocupadas por telas, é um local onde se sente o tempo a passar mais lentamente. Tímido e sorridente diz que gosta de passar todo o dia no atelier. Vai para lá de manhã e sai ao final do dia como um operário. Pode ficar muitas horas à volta do mesmo trabalho sem se aborrecer e o difícil é fazer com que a mente não viaje para outros sítios. É um exercício de concentração que lhe dá muito prazer. 


Gostaria de sair de São Miguel, mas este ano é para trabalhar ali, no silêncio, no meio do verde e do azul. Por vezes encontra-se com a Beatriz no atelier e são as conversas entre os dois que o fazem resolver questões que surgem acerca do seu próprio trabalho. Sente que os trabalhos se contaminam o mínimo possível porque vão em direcções diferentes e não há competição. 


A Beatriz considera o seu trabalho muito próximo da fotografia, trabalhando com transparências, sobreposições de cores e projecções. Mas não é nem pintura nem fotografia. O João trabalha sobre equilíbrio e gosta de estar no intervalo entre a escultura e a pintura. Este é o ponto que os une: não se consideram pintores, nem escultores, nem se limitam numa definição. Trabalham no espaço entre as disciplinas e é aí que se aprofundam e que exploram os seus trabalhos. 


Ambos falam com entusiasmo e orgulho por pertencerem a uma geração nova de artistas dos Açores. O arquipélago mudou nos últimos anos, com as viagens low coast e o crescimento de turistas. É possível ir a São Miguel pelo mesmo preço que se vai ao Porto, é possível trabalhar nos Açores e ter exposições a decorrer no Continente sem dificuldade. Até há uns seis anos não era assim e os Açores eram culturalmente mais pobres. As artes também foram impulsionadas por festivais como o Walk & Talk e o Tremor, apesar do João sentir que ainda não é suficiente. Diz-me que o Porto, mesmo tendo uma faculdade mais conservadora, tem uma vida diferente e que precisa disso para se sentir estimulado. 



A identidade micaelense é importante no discurso dos dois e é claro que se sentem em casa ali, nunca tendo assumido como lar os locais onde estudaram. São Miguel foi de onde vieram e sempre que precisarem de limpar a cabeça aquela será a sua casa. Sair da ilha é sinónimo de regressar um dia e isso é evidente quando a Beatriz conta que por vezes se abstinha de fazer trabalhos com maiores dimensões enquanto estudava nas Caldas porque não sabia como transportá-los 'de regresso' a casa.


O Atelier Brum está aberto ao público e a inauguração deu-se há uns meses. A Beatriz não deseja ficar parada e quer receber artistas no atelier que possam partilhar o espaço consigo. Quer que o espaço tenha vida e quer que o seu trabalho evolua também por contacto com outros artistas. Está neste momento a fazer mestrado em Artes Plásticas, mas terminou o mestrado em Gestão Cultural em Setembro. Fazia-lhe falta saber como gerir arte, que é o que não lhe ensinaram na faculdade. 
Ambos acham impressionante que não se aprenda a gerir uma carreira artística. Esse mestrado obrigou-a a distanciar-se do seu trabalho enquanto objecto emocional e a olhar para ele enquanto inserido num mercado. Foi duro, mas é preciso. 


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Para os interessados em visitar e ficar no BRUM ATELIER:
brumatelier@hotmail.com
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Beatriz Brum

João Miguel Ramos