Aba Dropdown

sexta-feira, 25 de maio de 2018

MANUEL SAN PAYO

Encontrei-me com o MANUEL SAN PAYO (Lisboa, 1958) à porta da Galeria Monumental em Lisboa. É o dono deste espaço de exposições, é professor de desenho na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL), tem um pequeno atelier no mesmo edifício da galeria e vive num dos andares do prédio.


Entrámos pela portinha do atelier ao lado da porta da galeria, que revelou uma sala rectangular com uma parede forrada a estantes com livros, mesas desarrumadas, pinturas, desenhos e objectos variados. Só havia espaço para andarmos em linha recta até à porta do fundo que se abre para a Monumental, mas mesmo assim detivémo-nos ali algum tempo.


É entusiasmante falar com o Manuel, que é afável e conversa muito sem maçar. É bastante enérgico e parece que está sempre desperto, com os olhos muito abertos, ao mesmo tempo que é paciente. Qualquer sítio para onde olhe é um estímulo para falar de determinado assunto e muitas vezes os temas atropelam-se na conversa porque há tanto para dizer. É espantoso ver como é rápido e fluído a falar, conversando como quem desmonta matrioskas. Parecia que estava perante uma pessoa com dois pares de olhos, uns para dentro e outros para fora, uns melancólicos e pesados, outros leves e cheios de vivacidade.


Costumo ver no seu instagram (@dr_stealdare ) e no seu facebook as fotografias que tira ao diário gráfico e os desenhos que faz no iPad. Quando falei nos desenhos digitais, disse-me que gostava muito de desenhar assim, que era fácil, já estava habituado e tinha uma série de aplicações instaladas  que faziam mais ou menos a mesma coisa. Num rápido 'queres ver?' e sem esperar pela minha resposta, jogou as mãos aos bolsos do casaco para de lá saírem agarradas aos dedos umas seis ou sete  canetas e lápis como se fossem lanças. 'Olha, não encontro a caneta do iPad! Deixa ver aqui...' e no outro bolso outras tantas.


Os diários gráficos são também aquilo a que se dedica diariamente. A sua tese de doutoramento recebeu o título "O desenho em viagem: álbum, caderno ou diário gráfico, o álbum de Domingos António Sequeira", onde o Manuel afirma que se quer o álbum de artista como uma presença constante e que o diário gráfico se torna num suporte cúmplice e coincidente com o quotidiano. Não é preciso segui-lo há muito tempo para perceber que as suas acções subscrevem esta ideia, já que praticamente todos os dias fotografa aquilo que desenha e "posta" sob o título 'caro diário'.


Há um diário gráfico pelo qual tem estima especial. O seu avô, vindo da aldeia de Sampaio no Minho, emigrou com a mulher e as duas filhas a bordo de um navio transatlântico. Alterou o seu apelido para o nome da terra de onde vinha, distorcendo a ortografia para San Payo, e durante o tempo em que esteve embarcado foi desenhando no seu próprio diário. Não é que fosse um diário especialmente bem desenhado, mas o avô tinha interesses variados e o desenho era um deles.


Saímos da pequena sala rectangular e eu percebi que este atelier não tinha espaço físico. No caso do Manuel, o atelier não existe porque qualquer lugar é bom para desenhar ou para fazer experiências. Aquela sala anexa à galeria onde havíamos estado era só um local de passagem e de consulta, não era um sítio para se estar, muito menos para se ficar a trabalhar.


A parte da Galeria Monumental aberta ao público é só o rés-de-chão do edifício que faz jus ao nome. Herdado, alguns andares do edifício estão arrendados a particulares mas, à medida que vamos subindo as escadas, passamos por um fantástico andar com pé direito invejável, agora em remodelações para se transformar em residências artísticas e ateliers temporários talvez ainda este ano. O Manuel quer dar outra vida àquele espaço e tem em mente um plano em grande. Gostaria que artistas portugueses e estrangeiros pudesses passar ali temporadas, no sítio privilegiado que é o edifício e a sua localização, o próprio Largo Mártires da Pátria, a dois passos de tudo. 


Conforme ia passando pelo meio dos materiais de construção e dos pedreiros, enquanto me surpreendia que ainda houvesse mais uma porta depois daquelas todas que tínhamos acabado de abrir, o Manuel falou-me da estranheza permanente que é ser artista e galerista em simultâneo. No início, há trinta anos, aquele era um espaço mais ou menos degradado onde expôs com alguns amigos depois de ter terminado a licenciatura em Pintura nas Belas-Artes. Entretanto foi-se transformando em galeria e com essa transformação veio o conflito interno acerca do assunto. É como se fosse Deus e Diabo ao mesmo tempo, sem saber muito bem a qual corresponde cada um.


Os artistas não se deviam preocupar com as vendas do seu trabalho - outra pessoa devia conseguir promovê-los e vendê-los e os artistas só se deviam concentrar na produção. O tempo do trabalho plástico é diferente do tempo do mercado da arte, mas realisticamente o artista tem que gerir ambas as coisas. Não é fácil porque implica focos diferentes e frustrações acumuladas. 


É também para mostrar e vender que as galerias existem. Apesar da Monumental estar bem posicionada no bairro, as pessoas dali não entram porta dentro, nem só para ver. As inaugurações estão compostas, mas parece que as pessoas têm medo de entrar na galeria, apesar da amplitude da sala de exposições e do à-vontade com que somos tratados. É também por isso que deseja que o edifício se torne mais do que uma galeria, porque se tiver outro tipo de movimento, acabará por atrair pessoas que neste momento ainda não entram no espaço.


O Manuel disse-me repetidas vezes que adora ensinar, que se sente muito estimulado pelos alunos e também gosta de estimulá-los. Por vezes aparecem mentes muito frescas e é também com eles que tem ideias. No momento desta visita estava a 'fazer gelatinas'. Nem tive tempo de perguntar o que era, porque sem querer já estávamos a caminho de experimentar uma. Disse-me, enquanto fazia um espacinho entre carimbos, canetas e outros materiais, que a gelatina é um excelente meio para fazer  impressão sobre papel porque passa qualquer de tinta que esteja sobre ela. 


Impressionou-me que conseguisse manter dois discursos em simultâneo sobre o mesmo assunto sem se perder e sem me confundir. Enquanto ia descrevendo que estava a desenvolver este trabalho com os alunos, dizia que agora punha ali um bocado de tinta, depois outra camada, e alguns alunos tinham levantado o problema de serem vegan, agora era só passar o rolo para espalhar as diferentes camadas, que a gelatina não era vegan e ele tinha que encontrar forma deles fazerem o trabalho, vamos pôr aqui uma rede que está ali na gaveta do lixo útil, vai lá buscar ali, e passar aqui o diário gráfico para ficar com uma impressão, porque imagina, recusam-se a utilizar gelatina se for feita de animais e o Manuel nunca tinha pensado nisso. Ao final de um minuto, duas ideias, uma impressão e um pequeno desgosto passageiro: 'epá, estas cores ficaram um bocado feias, não foi?'.


Parece que falar com clareza e ensinar lhe é inato e que as ideias o assaltam em catadupa. Subimos para sua casa, mais um andar amplo, em madeira e cheio de luz, onde ficámos a conversar durante uns minutos até nos despedirmos. No dia a seguir iria para uma feira em Espanha, para regressar dois dias depois. Chamou-me a atenção um livro ilustrado de contos do Edgar Allan Poe, que prontamente o Manuel tirou da estante, comentou sobre o óptimo ilustrador e disse: 'leva, leva, lê e depois logo me trazes de volta'. Já tenho um pretexto para regressar.


_______________

segunda-feira, 16 de abril de 2018

FÉLIX RODRIGUES



O FÉLIX RODRIGUES (Faro, 1995) está no último ano da licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e o seu trabalho tem vindo a desenvolver-se no atelier mais pequeno que visitei.


Mudou-se em Janeiro para uma casa em Santos, em Lisboa, onde arrendou um quarto de sonho. Paredes brancas, óptima luz a entrar pela janela e um mezanino que permite dividir o espaço em duas áreas, uma para dormir em cima, e outra para trabalhar em baixo. Por baixo da cama está uma secretária, um guarda-roupa dividido em zona para materiais e espaço para roupa, e o mínimo de desarrumação possível. Lembra uma casa sueca ordenadíssima, onde tudo cabe e mesmo assim se consegue manter a arrumação.


Quando passamos a porta do quarto, cabemos em pé ou sentados no chão, que é também onde o Félix - ou Li, como toda a gente o trata - trabalha. Ao fundo, ao canto, há uma janela com almofadas no chão. É o seu local privilegiado para bordar ou desenhar.


Apesar de terminar o curso dentro de uns meses, só agora sente que entrou na lógica da universidade, num trabalho mais ordenado e com sentido. Os primeiros dois anos não foram fáceis: fez umas disciplinas aqui e ali, queria desistir e a adaptação a Lisboa não foi tão simples como pensava. Apesar disso prosseguiu o estudo e é em Lisboa que deseja ficar. Fala com uma certa pena na hipótese de sair das Belas-Artes e pondera tirar o mestrado na faculdade, mas são pensamentos pouco amadurecidos.


Esteve durante um verão em Londres num curso de Pintura numa faculdade e sentiu uma diferença na abordagem ao ensino. Relata que em Lisboa, na FBAUL, há uma certa competição silenciosa. Ninguém fala dela, mas todos sentem o peso, o medo de terem as ideias roubadas, os trabalhos destruídos. Apesar de haver algum espaço, o Félix não consegue trabalhar na faculdade porque é um local pesado, onde se sente observado constantemente.


Em Inglaterra o caso foi diferente. Os colegas opinavam livremente uns acerca dos outros, os professores não se limitavam a franzir o sobrolho e sentiu que recebeu conselhos valiosos acerca do seu trabalho, como por exemplo ser estimulado a fazer coisas diferentes daquilo que insistia em repetir. Diz-me que se pode habituar facilmente ao traço que lhe é mais fácil e só naquela faculdade percebeu que mudar era essencial para enriquecer o trabalho.


Numa das paredes do quarto há um pequeno tríptico com representações suas de Joana d'Arc, São Sebastião e um anjo. Estão pintados dentro do seu esquema cromático: azul, amarelo e vermelho. Deu por si a representar um arco-íris nessas três cores e a repeti-las nos diários gráficos e nos seus trabalhos.


Todas as paredes estão ocupadas por trabalhos em curso, pequenos trabalhos concluídos e sobretudo muita inspiração. A determinada altura puxou de um baldinho de plástico com uma série de doces e estendeu-mos, oferecendo. Quando eu pensava que estava perante um viciado em açúcar, o Félix disse-me que os tinha comprado para desenhar. Ainda não sabia se à vista ou se os ia usar enquanto objectos em trabalhos. Não quis comer um pedaço do trabalho de outra pessoa, por isso controlei o meu impulso.


Antes de se apresentar como se apresenta, o Félix conta que se arranjava seguindo a moda japonesa do estilo  Kawaii . No Japão, apresentar-se como fofinho ou querido é aceite como característica e até desejável para ambos os géneros e o Félix utilizava essa forma de expressão para performar a sua identidade. Agia como quem brinca com o estilo que é altamente produzido e muito auto-consciente. Dessa época aparecem réstias no seu quarto, como uns lenços cor-de-rosa, o seu gosto por flores e por cores opacas e vivas, bem como a sua afinidade por cores pastel.


Adora pintar com guache, apesar de reconhecer que há um certo preconceito com o material. Toda a gente se lembra das primeiras experiências com esta tinta na escola primária, mas quando chegou à faculdade percebeu que o seu poder de cobertura, a textura matte, a ausência de cheiro em comparação com o óleo e o seu preço tornavam o material muito apetecível. Como é que se vende uma pintura a guache? É por ser percebido como material fácil que o Félix sente que os trabalhos que o têm por base são levados menos a sério.


Os seus diários gráficos são um poço de luz e de cor. Ocupa a totalidade da página com flores ou cores garridas e por vezes as páginas servem de diário pessoal. Apesar de ser uma pessoa tímida, o Félix é muito disponível quando aborda qualquer assunto. Está pronto para dizer o que pensa, docemente e sem rodeios. Quando lhe perguntei se não tinha receio que o seu trabalho fosse rotulado como feminino, pelas flores e pelas cores, ele diz-me que não.


Foi depois da última fotografia que me contou que o seu trabalho mudou muito desde há um ano para cá e que não sabe até que ponto isso se deveu à mudança por que está a passar. Durante toda a sua vida, as pessoas viam nele um género que não era o seu e que de facto se sente homem em vez de mulher. Prosseguiu Pintura, está em tratamento hormonal e hoje é oficialmente o Félix, sem receios de pintar e trabalhar acerca de assuntos que sejam identificados com um lado feminino.



_________________

Tens Instagram?

Tens Facebook?