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terça-feira, 16 de outubro de 2018

JOÃO PEDRO VALE e NUNO ALEXANDRE FERREIRA


Andava há mais de um ano a tentar ir ao atelier JOÃO PEDRO VALE (Lisboa, 1976) e do NUNO ALEXANDRE FERREIRA (Torres Vedras, 1973). Quando nos encontrámos no final de Setembro, apanhei-os praticamente de saída para Paris. Subversivos e activistas, consideram-se à margem do meio artístico, mas nem tão à margem assim e a nossa conversa desenrolou-se acerca do seu equilíbrio na circunferência.


Este atelier nas Olaias, em Lisboa, é uma garagem que os próprios terminaram de construir numa zona complicada da cidade. O seu exterior, fechado, com lixo à porta que é atirado pelos vizinhos, não deixa adivinhar que por dentro há um atelier que faz lembrar os bastidores de um teatro de revista. Assim que entrei tive logo vontade de trabalhar só de olhar para a quantidade de adereços, material de pintura, acessórios, mesas e sobretudo espaço, muito espaço para circular ou para dançar se for preciso. O que mais impressiona é a distância que é possível ter de cada trabalho e a facilidade com que somos engolidos por aquele ambiente colorido que é capaz de nos pôr rapidamente a reflectir. Senti que tinha sido sugada para um sítio mágico, de onde podiam sair palhaços por trás das paredes ou majorettes com chapéus de purpurina. Naquele espaço parece que se pode tudo.


Fui recebida por duas caras ternurentas num dia de calor. Ao longo da nossa conversa as ideias de um e de outro foram-se completando mutuamente. São quase vinte e dois anos a namorar e dez anos a assinarem os mesmos trabalhos, por isso é natural que o discurso sobre o trabalho seja semelhante. Mas mesmo assim a forma como se referem às situações dos seus quotidianos dá a sensação que estou a ouvir uma única pessoa muito articulada. Pensam em simultâneo mas não se interrompem e quando discordam, não se atacam, dizem só que sobre tal assunto há outra perspectiva que devia ser explorada. São sobretudo cordiais entre si e terra-a-terra quando conversam.


É raro entrevistar duplas de artistas e ainda mais raro é entrevistar pessoas que fazem questão de dizer que são namorados, que não são só artistas a trabalhar em conjunto. Vivem equilibrados, mas isso só acontece porque não se sentem nem se querem sentir no centro. Esse equilíbrio excêntrico é o que lhes permite viver do trabalho que fazem. Não estão absolutamente "dentro do sistema", quero dizer, não são representados em exclusividade por qualquer galeria, mas trabalham com galerias ocasionalmente, participam em bienais e trabalham muito e com regularidade, sempre com a perspectiva de que nenhum trabalho é para ficar guardado no atelier. É curioso ouvi-los falar porque o João Pedro sente que desde que deixou de ser representado exclusivamente por galerias, trabalha mais livremente. Pagam caro por essa liberdade porque agora têm a seu cargo todo o trabalho de logística e de auto-gestão para além do trabalho plástico, mas dizem que vale a pena porque já nada interfere no que desejam fazer.


Quando começaram a assinar em conjunto, o trabalho tornou-se diferente e sentiram que criaram uma coisa nova, diferente daquela que o João Pedro fazia a solo e compreenderam que se se autorizassem a mudar a forma como se apresentavam e aos seus trabalhos, podiam beneficiar mais do que se só confiassem em galerias para geri-los. Agora conseguiram um equilíbrio entre o que querem fazer e o que se espera que façam.


Medem o sucesso como a capacidade de conseguirem concluir um projecto para ser visto e compreendido por pelo menos uma pessoa. A noção geral de sucesso, dizem, é heteronormativa, machista, cisgénera e branca. Normalmente mede-se o sucesso pela capacidade de construir família, ter uma casa, um emprego, um carro, e naquilo que é considerado "útil" não entram obras de arte ou ser artista. Diz o Nuno que nós somos tão mais bem sucedidos quanto mais compactuarmos com "a máquina" e que é fácil destruir esta ideia fechada e autofágica de sucesso.


A verdadeira medida de sucesso é mais alargada do que tendemos a considerar. O seu sucesso passa a ter em conta a capacidade de fazer os outros pensar e ter liberdade para concretizar as suas ideias, apesar de também considerarem que a liberdade artística é um mito porque também querem fazer as coisas para os outros perceberem. E mais uma vez se levanta a questão da margem: não podem nem querem estar assim tão longe. Não se pode ser demasiado marginal porque senão não se é visto.


De momento este é o seu único espaço de trabalho, mas há algum tempo tinham o Bregas, um atelier em Xabregas que usaram para construir peças grandes, mas que depois deixou de ser necessário. Então pensaram que poderia ser um sítio aberto ao público onde os seus amigos exporiam e fariam residências. Desejaram criar um espaço onde se pudesse criar conhecimento de uma forma descontraída, independentemente do resultado final. O problema foi que nunca pensaram que se tornasse tão popular e a determinada altura, em vez de serem eles a propor quem lá expunha, recebiam propostas. O seu trabalho é sempre curatorial no sentido em que seleccionam e escolhem o que querem mostrar, mas não estavam preparados nem queriam desempenhar um papel destes em relação a outras pessoas. De repente eram curadores e sentiram que tinham entrado num território onde não queriam estar - não queriam ser as pessoas que autorizam ou não autorizam. Por isso o Bregas acabou por fechar.


Tanto o Nuno como o João Pedro falam num tom doce, sem nunca deixar de olhar nos olhos. A nossa conversa desenrolou-se com o meu silêncio gradual, até que eu passei a sentar-me noutra zona da mesa para fotografar melhor e fiquei defronte de dois grandes charriots com fatos coloridos pendurados que contrastavam com a parede preta. Nesta altura, ambos conversaram entre si sobre como era importante trabalhar em equipa. Os mesmos temas são abordados por áreas diferentes e se querem ser ouvidos, não faz sentido utilizar só a sua linguagem para falar acerca dos seus assuntos. É por isso que colaboram muitas vezes com companhias de teatro, de dança ou de outras áreas que sintam que possam acrescentar ao seu discurso.


O João Pedro e o Nuno são artistas estabelecidos e referências importantes, por isso estava curiosa por saber que medos tinham. Responderam-me que têm receio de não compreender o trabalho e as preocupações de gerações que se alimentaram e que tomaram os seus trabalhos como referência. Ao fim ao cabo, têm medo de ficar conformados e não querem ser "bichas assimiladas", como os próprios disseram. É bom fazer parte de uma geração que puxa os limites e é bom que a geração a seguir faça coisas diferentes, que puxe além dos limites e que force a mudança. Ainda bem que continua a acontecer porque o centro tem sempre o seu limite em conta - não o quer, mas alimenta-se dele para se definir e por isso vai buscar quem vive nessa linha. A oportunidade para ser visto e compreendido está aí.


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

HUGO AMORIM



O HUGO AMORIM (Lisboa, 1975) é artista plástico e gravador. Encontrámo-nos no seu espaço na Rua da Bombarda, 12, nos Anjos, em Lisboa, onde conversámos durante duas horas sentados na sua mesa de trabalho.


O espaço onde o Hugo trabalha já foi a fábrica da Farinha 33. O lado direito é ocupado pelo seu projecto MEEL, Press, e a mezzanine pelo trabalho que o Hugo faz em nome próprio. O lado esquerdo, pela artista plástica Cristina Lamas apesar de agora estar em obras, e há uma sala extra à qual o Hugo pretende dar outra vida a partir do próximo ano. 


Quando se entra no seu estúdio e não se conhece o seu trabalho pessoal, é difícil perceber que trabalho é seu e que trabalho é feito por outros artistas. É que o Hugo, além de ser artista plástico, é também gravador e criador da MEEL, Press, Múltiplos E Edições Limitadas, que produz múltiplos  com outros artistas.


O Hugo está numa posição privilegiada. Os artistas chegam para trabalhar, muitas vezes em colaboração, já que o Hugo faz o acompanhamento técnico e muitas vezes ajuda o artista a encontrar soluções. Durante algum tempo - que podem ser dias ou meses - convivem diariamente e passam a conhecer-se de outra forma. Foi assim que criou uma relação com algumas pessoas com quem hoje mantém contacto apesar do trabalho conjunto ter terminado. 


A luz que entra pela sala dentro ilumina a mesa de trabalho e a prensa sem nos ofuscar. Todos os materiais estão ali mesmo à mão, prontos a ser utilizados. Mas o estúdio de gravura não foi sempre neste local; há cinco anos era numa salinha na sua casa em Carcavelos com menos de metade da dimensão desta. 


Não havia nada que fizesse antever esta vida de gravador. Quando terminou o 11º ano, andou algum tempo perdido, sem saber o que fazer. Uns anos mais tarde entrou em Pintura no Ar.Co e interessou-se por gravura mesmo contra todas as probabilidades, já que considerava que esta técnica era aborrecida e antiquada. Quando percebeu que poderia ser interessante, ficou com um pequeno estúdio na escola onde os materiais estavam guardados. Com o tempo chegou a ser professor, mas entretanto nasceu-lhe a filha e o Hugo arranjou emprego mais estável numa empresa de engenharia. 


Mesmo durante essa fase nunca deixou de ter o seu próprio atelier. Entretanto houve um despedimento em massa e o Hugo aproveitou o dinheiro da indemnização para comprar o material que precisava e montou a MEEL, Press.


O Hugo diz que por muito tempo que os artistas passem consigo, ele não se deixa contagiar pelos seus trabalhos ou ritmos de pensamento. Nessas horas a sua função é a de operário, mas o seu trabalho pessoal é absolutamente diferente daquilo que faz com quem o contacta. No entanto há vantagens pelo facto de ter formação artística porque sente que consegue entender a visão dos artistas com quem trabalha.


O Hugo não quer o seu trabalho plástico a conviver com os trabalhos da MEEL porque não o quer mostrar antes de estar terminado, por isso mantém-no arrumado longe do nosso olhar, na mezzanine. Conta que há algum tempo viu um documentário sobre os primeiros bombardeamentos a Londres com Zeppelins durante a Primeira Guerra Mundial. Os grandes projectores de luz que se usavam para localizar estas armas de destruição maciça criavam um cone de luz. O Hugo explorou esta ideia numa série de desenhos feitos a carvão em que ele representa a sombra de um cone de luz, onde o branco do papel sobressai. 


Se lhe pergunto directamente sobre algum trabalho, as suas respostas são evasivas e concentram-se mais nas técnicas que usa e nos projectos em que está a trabalhar. Na série que tem na parede do atelier, papéis pretos dobrados e vincados em sítios particulares como se fossem um origami desmanchado, há um movimento de desconstrução. A luz incide de tal forma que à primeira vista, em vez de se verem vincos, vêem-se diferentes tons de cinzento.


A voz do Hugo torna-se gradualmente mais silenciosa à medida que vai falando sobre o seu trabalho pessoal. Quando estudava Pintura, criticavam frequentemente a sua tendência para acumular muitas cores, muita tinta, e o trabalho tender a tornar-se confuso. A partir daí o seu movimento vem sendo contrário: vai desconstruindo, desmontando e retirando até ficar o essencial.