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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

HORÁCIO FRUTUOSO



O HORÁCIO FRUTUOSO (Porto, 1991) vive em Lisboa há um ano e meio e há seis meses numa casa enorme nos Anjos, que é partilhada com três pessoas. É tímido, mas só aparentemente, porque quando lhe perguntei se era bem comportado, respondeu-me a sua primeira gargalhada e um 'Parece! Mas não, não sou!'.



Estudou Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto mas não sente que a faculdade tenha feito muito pelo trabalho que tem desenvolvido. As aulas não foram tão produtivas como gostaria, os professores não estavam envolvidos no meio artístico como esperava e parte dos colegas era desinteressada. Ia com as expectativas altas, pensou que ia entrar para 'o mundo da arte' através da faculdade e foi uma desilusão nesse sentido. Tem a certeza que se não tivesse encontrado colegas mais velhos e se não se tivesse juntado a eles, não teria terminado o curso como terminou.



Foi o grupo ao qual se juntou que lhe deu ânimo e que foi a sua verdadeira FBAUP. Organizavam-se como se expusessem em galerias, construíam catálogos e eram activos dentro da faculdade. O Horácio precisava disso para se sentir enquadrado. Em retrospectiva, só necessitava de encontrar as suas pessoas, mas elas não eram os colegas de turma; não estavam onde ele julgava.



Foram essas pessoas que o despertaram para o design e foi em simultâneo que aprendeu a mexer em programas de computador que lhe permitem fazer o trabalho de hoje. Interessa-lhe sobretudo a máscara que todos usamos, especialmente online, em redes sociais, para criarmos experiências colectivas e para nos podermos identificar uns com os outros. Como se todos precisássemos de ser qualquer coisa que não somos para podermos estabelecer um elo de ligação.



Exemplifica-me com o Tumblr, a rede de blogues que é uma espécie de diário aberto, público, onde postamos qualquer coisa e os nossos seguidores podem 're-blogar' aquilo que dissemos. Como se se apropriassem da nossa experiência para torná-la experiência sua. É isso que faz e foi isso que fez na sua exposição mais recente no Museu do Chiado sobre Género na Arte. Pintou na parede experiências de todos nós que podiam ser experiências de um indivíduo sem que ele desconfiasse que eram partilhadas por um conjunto de pessoas diferentes.



Tem um irmão gémeo que é geólogo e vive fora de Portugal. Dão-se excepcionalmente bem, mas o Horácio sente que talvez haja uma relação entre trabalhar assumindo experiências dos outros e o facto de ter um irmão fisicamente parecido consigo que vive uma vida diferente da sua. Como se houvesse uma dualidade na sua vida que pretende assumir no seu trabalho plástico. Deixa claro que não gostaria de ter a vida do irmão, mas por vezes pergunta-se como será ser ele em vez de si.



Encontrámo-nos em sua casa, mas o seu atelier está dentro do seu computador. Não precisa de um espaço físico para concretizar o seu trabalho até porque sente que o processo de trabalho é o mais importante. Não é necessariamente o resultado final, o trabalho que aparece ao público, a parte que mais lhe interessa. O produto final é uma consequência inevitável daquilo que faz. Vai passeando, vai-se encontrando com amigos e anota no google docs do telefone aquilo que lhe chama a atenção para depois poder trabalhar em casa a partir do computador.



O seu trabalho é político mas não é necessariamente sobre política, o estado do país ou do mundo. É contemporâneo no sentido de assumir a tensão política em que se vive, expressando preocupações suas que são passíveis de ser generalizadas.



O Horácio fala com muita calma e sempre que se refere a amigos ou aos pais, adopta um tom doce e amável. Ouve até ao fim, reflecte e só depois responde, sempre com uma dicção invejável. A casa minimalista, o seu quarto com muito poucos objectos e uma cama individual estão decorados da mesma forma como ele se veste; é tudo tão monocromático como o seu trabalho. Se fala das suas inquietações, assume uma postura séria e quando conversamos sobre o facto de ser gay, à primeira abordagem diz-me que o assunto não tem grande relação com o seu trabalho. De seguida pensa melhor e diz que talvez tenha, mas de uma forma inconsciente. Costuma dizer que trabalha sobre relações, mas na verdade trabalha sobre o amor e como o faz a partir da sua experiência, não pode deixar de abordar o assunto ainda que indirectamente.



Gosta muitíssimo de Luiz Pacheco e quando quis ler a sua obra não havia nada disponível. O que havia para comprar custava mais de cem euros. Até que descobriu uma das obras digitalizada e decidiu fazer a sua própria edição, paginada por si para ser distribuída. Mas no dia em que a disponibilizou, todos os exemplares foram roubados. Sobrou-lhe o seu, que guarda religiosamente. O Horácio escreve muito porque é a partir das palavras que todos os seus trabalhos saem - tem uma série de caderninhos, mistura entre diários gráficos e agendas, onde vai anotando os seus planos.



Antes dos trabalhos tomarem esta forma, não trabalhava com palavras. Mas quando o convidaram para o Walk & Talk nos Açores, juntou-se ao grande amigo, o Tiago Alexandre e descobriu que apesar da amizade, não havia uma linha que conectasse os seus trabalhos. Até que um dia abriu à frente do Tiago um caderno seu com anotações e ambos perceberam que aquilo que estava escrito como apontamento deveria ser exposto como trabalho final.



Ficará em Lisboa até lhe apetecer, mas está cada vez mais dentro da cidade. Ao fim ao cabo só precisa de um computador e de uma vida minimamente activa. O resto é vontade de demonstrar vulnerabilidade e vontade de contrariar a onda de racionalidade que diz sentir na arte portuguesa contemporânea.

O instagram do Horácio vale a pena!
Também pode ser contactado através do seu facebook!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

ANA PÉREZ-QUIROGA


A ANA PÉREZ-QUIROGA (Lisboa, 1960) e eu combinámos encontrar-nos às 14h, mas eu não desconfiava que a minha visita ao seu atelier duraria até à meia-noite com ida à Galeria Monumental e jantar incluídos. Quando saí da sua casa pensei que não iria saber o que escrever.
Nunca tinha estado onze horas a conversar com uma pessoa que nunca havia conhecido antes sem sequer ter anotado uma única frase. Este texto é um desafio à minha memória.


Quando entrei no seu primeiro espaço, uma sala pequena e naquele momento atulhada, ainda não sabia que a Ana era uma pessoa muito metódica e organizada. Uma certa obsessão por espaços feitos à sua medida e esteticamente agradáveis apressou a justificação de que aquele local não costumava estar assim. Só tínhamos combinado encontrar-nos naquele sítio porque a Ana tinha trabalhos para arrumar. Com o passar do tempo vim a perceber que o seu atelier não se reduzia a um espaço e que aquele sítio era onde guardava alguns trabalhos e recebia pessoas. O que interessava era a conversa que estávamos a ter enquanto me ia mostrando cada objecto. 


Não creio que alguma vez, durante estas horas, tenhamos chegado a um espaço particular de trabalho. A Ana usa a rua, o espaço habitado por toda a gente, os objectos manuseados por todos nós, para construir o seu corpo de trabalho. Não precisa de um espaço especificamente designado para concretizar as suas peças. O seu atelier é a combinação daquilo que vai pensando, da rua, do tempo e das pessoas com quem está, dos passeios e dos sítios onde manda executar as ideias que lhe surgem.


Escrever sobre este atelier é ir descrevendo quase gesto por gesto, conversa por conversa. À medida que o ambiente ia mudando, à medida que a Ana me ia mostrando determinado trabalho ou contando algum episódio da sua vida e eu ia retribuindo com as minhas próprias histórias, fui estando cada vez mais dentro do tom do seu trabalho. 

A Ana conta com os outros para que o trabalho se concretize. Como a própria diz, é uma pessoa muitíssimo sociável; eu diria quase ubíqua. Mas quando lhe perguntei se não gostava de estar sozinha, respondeu-me que por vezes passava dias e dias sem falar com alguém. 


Define-se como feminista e lésbica e afirma que os seus trabalhos falam para mulheres. As questões de género tomaram conta de grande parte da conversa - é um assunto que lhe é muito caro e é também sobre isto que fala o seu trabalho. É sobre a sua condição de mulher feminista em conjunto com outras mulheres e é também sobre o mundo se dividir, pelo menos ao primeiro relance, em dois géneros. Afirma que não há pessoas, há géneros e vontade de corresponder ao estereótipo ou não. Para viver no mundo onde vive é necessário que assuma uma atitude radical. O trabalho que faz, a forma como vê os objectos e os utiliza são consequência dessa condição de mulher, física e cultural, sob a qual nasceu.

Há uma energia vital nas palavras da Ana que é a mesma energia que habita os seus trabalhos. Se a tivesse visitado no dia anterior ou um mês depois, teríamos feito outro percurso, ter-nos-íamos expressado de forma diferente, mas creio que reconheceria este seu movimento interior. Há um vigor naquilo que diz, na seriedade educada com que se expressa que é facilmente reconhecível como sendo a desta pessoa particular. Conversar com a Ana é como estar dentro de um trabalho seu. 


Saímos do primeiro espaço e fomos descendo até à Galeria Monumental, no Largo Mártires da Pátria, onde estava uma exposição da Alice Geirinhas para a qual a Ana contribuiu. Pelo caminho, num passo decidido e rápido que acompanhava a velocidade da conversa, eu ia reparando que a Ana estava impecavelmente vestida de seda. Mais tarde disse-me que desenhava e mandava confeccionar a sua roupa à medida com tecido que trazia da China, onde costuma ir todos os anos para trabalhar. O trabalho é a própria vida e é o que a faz deslocar-se também para o outro lado do mundo. As idas à China começaram com uma bolsa da Fundação Oriente numa altura em que estava a trabalhar sobre o país. Ganhou-a e desde então tem regressado com frequência.


Pelo caminho contou-me que está a iniciar o Pós-Doutoramento, mas foi do Doutoramento recentemente defendido que mais conversámos. Uma parte do mesmo consistiu na catalogação de todos os seus objectos (4888 até 12 de Julho de 2016), na exposição fotográfica online no seu site desses objectos, na possibilidade de se marcar um jantar-performance com a artista, cuja comida é  confeccionado pela própria e na transformação da sua casa tal como a Ana a habita em obra de arte, podendo ser arrendada por duas noites. Este Breviário do Quotidiano #8 pode ser visto aqui.


Cada passo está contaminado pela sensação de que a Ana não quer perder nada, quer estar absolutamente consciente de tudo. A sua parte racional foi muito enfatizada pela própria e é importante que mantenha a consciência alerta. Não foram raras as vezes em que reparou em pormenores que me passaram despercebidos mas que foram alvo da sua atenção. É verdadeiramente atenta e muito presente no sítio onde se encontra.


O seu instagram é um dos seus trabalhos - como diz a própria, é um auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade. Um álbum com mais de vinte mil fotografias para o qual a Ana contribui diariamente com bastantes publicações. No caminho a pé que fizemos, parámos várias vezes para fotografar detalhes, objectos ou situações que lhe chamaram a atenção e que não deixou de comentar. A Ana não parou de fazer o que tinha planeado para conversar comigo: prosseguiu o seu dia incorporando nele a minha companhia, conversando sem nunca haver falta de assunto. De facto esta era a única forma que havia para visitar o seu atelier. 


Depois da visita à galeria prosseguimos até sua casa, na Baixa. É o último andar de um pequeno prédio com madeira à vista que cheirava a caril. À porta do andar, a Ana tem uma placa dourada dizendo 'Ana Pérez-Quiroga - Artista' que faz lembrar as entradas em consultórios médicos. Não me pareceu estranho, dado que conversámos bastante sobre a sua relação com a mãe, médica e uma das suas pessoas mais próximas. A influência dos pais sobre si, nomeadamente as constantes mudanças de casa a que se sujeitaram quando a Ana era criança, foi de tal modo determinante que hoje vai para onde lhe apetece sem estar presa a lado algum. Diria que só está presa à condição de artista, apesar de  só ter começado a sê-lo depois dos trinta anos. 


A sua casa é absolutamente o seu reflexo. As cores dos objectos e das paredes são indescritíveis e tudo parece estar no seu sítio. Sente-se que cada objecto foi pensado para onde está, não há outra forma de explicar. Mas tudo dá vontade de usar e vê-se que é uma casa vivida. Tal como a maior parte das casas de artistas que visitei, à nossa volta estavam trabalhos de outros artistas seus amigos ou de que gosta. A Ana não tem qualquer pudor em tirar os trabalhos da parede para me mostrar ou explicar alguma coisa - nada ali é estático e tudo pode ser feito de maneira diferente.


Não requereu ajuda para o jantar, a minha única função foi fazer companhia e continuar a conversar. Tal como havia intuído, a Ana vive aqui e agora e um reflexo disso foi quando me disse que nunca tem comida no frigorífico apesar de gostar muito de cozinhar. Compra sempre frescos, comida do dia, que cozinha no próprio dia. Durante a confecção do jantar baixei a guarda e a máquina fotográfica. 
Como disse a Ana, a comida desinibe tanto como o vinho. 

Foi com uma conjugação de ambos que terminámos a noite.

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O Instagram da Ana é este e o site da sua casa, este.
É para o seu mail no site que se pode marcar jantar e/ou estadia.

Há também o seu Facebook e blog :)