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domingo, 27 de janeiro de 2019

MARIANA, A MISERÁVEL


Conhecer a Mariana já seria marcante por si só, mas os sucessivos percalços e dificuldades da minha viagem Lisboa-Porto tornaram única esta ida ao seu atelier. Entrei acelerada, de rompante e quatro horas atrasada na minúscula casa da Mariana que me pareceu um santuário. Nem passámos pela fase de quebra-gelo: desabafei durante mais de trinta minutos encostada no seu sofá e a Mariana, estupefacta e olhando o meu ar alucinado, pôs-se à vontade também.



Quando entramos na casa da Mariana sentimos que estamos no sítio de uma pessoa tímida e silenciosa, onde os objectos têm um lugar definido e que, sendo acolhedor, está moldado à forma da artista. Todas as paredes da sua casa estão cobertas com desenhos e ilustrações. Há pequenas mesinhas com esculturas, materiais de trabalho aos cantos e espaço para uma pessoa só. A sala e a cozinha são a mesma divisão e o seu quarto só tem lugar para a cama.



A Mariana não tem o atelier em casa, tem a casa dentro do atelier e parece que habita dentro de uma ilustração sua. Este minúsculo espaço faz-nos sentir que acabámos de entrar numa realidade irrepetível e não traz a sensação de espaço de trabalho, mas de um trabalho seu propriamente dito. Não me surpreenderia se as ilustrações saltassem da parede e se animassem à frente dos meus olhos ou se a minha cara começasse a encolher e o meu corpo a esticar, como se me transformasse num das suas personagens. Aliás, a própria Mariana parece desenhada por si própria: certeira nas palavras, olhos em forma de lágrima e um bocadinho metida consigo mesma.



Os tectos altos, as paredes muito brancas e iluminadas, o cheirinho a vela a queimar e Tom Jobim a cantar lá ao fundo são a conjugação ideal para nos sentirmos dentro de um desenho.  Tudo está sincronizado para falarmos acerca do trabalho da Mariana, que diz que quando a conhecem esperam uma pessoa triste e uma cara fechada, mas que não é o caso. No fundo da nossa conversa há uma certa melancolia, mas sem lamúria e várias vezes falamos sobre como a tristeza é um sentimento pouco valorizado. A Mariana não sente que glorifique a tristeza, mas que lhe dá atenção quando as pessoas a desprezam, como se fosse proibido dizer-se que se está triste. Diz que a tristeza está em todo o seu trabalho, mas não considera que tenha um trabalho triste.



Tristezas antigas, tristezas infantis, amores perdidos, ansiedades quotidianas e pequenos sobressaltos são o que a Mariana desenha e escreve. O seu trabalho é muito sensível e empático, como se a cada desenho pudéssemos dizer que já sentimos o que ali está mas nunca tenhamos sabido expressar. Desde braços que abraçam o próprio corpo até corpos encolhidos que se escondem dentro de caixas onde não cabem bem, há lugar para toda a melancolia.



A Mariana Santos, que ri no final de cada frase, começou o seu percurso em Design e foi viver para o Porto onde não conhecia ninguém. Da mesma forma que não estava contente com a profissão de designer, também se ia desligando do namorado com quem vivia. Quando a relação terminou, já tinha começado a expor em sítios que não eram lugares óbvios para mostrar trabalho artístico. Começou a desenhar porque não tinha nada a perder e lentamente foi ganhando um traço reconhecível e a estabelecer uma linha de trabalho que tem vindo a evoluir.



O nome Miserável veio do título de uma zine que fez com uma amiga. Sem saber que seria um nome com projecção, Mariana, a Miserável soou-lhe bem e passou a ser a sua marca artística.
Durante a nossa conversa frisa bastantes vezes que é muito bom poder viver como vive, fazendo exactamente o que queria fazer e abdicando de muito pouco. Mas recentemente o trabalho foi excessivo, os seus braços estenderam-se mais do que podiam e a Mariana decidiu que estava na hora de começar a fazer terapia depois de ter passado por uma crise de ansiedade.



Neste ponto a nossa conversa mudou de rumo e passámos o resto do tempo a falar dos benefícios da terapia, que tal como a tristeza, é um assunto estigmatizado. Ir à psicóloga é um salva-vidas que nos devolve o controle, que nos faz prestar atenção a nós próprios e que nos obriga a reavaliar os nossos assuntos. A Mariana ainda não consegue perceber de que forma essas sessões influenciam o seu trabalho, mas como o seu trabalho é construído a partir da sua vida, supõe que sejam determinantes. Às vezes, quando chega ao consultório com a cabeça cheia de problemas, consegue destrinçá-los e olhá-los com distância e mesmo que os problemas não desapareçam, torna-se capaz de lhes pôr ordem.



Este consultório não é o único que a Mariana frequenta. Recentemente participou pela terceira vez no podcast O Fred e a Inês falam de coisas onde a ilustradora dá conselhos amorosos em tom leve, mas nem tão leve assim. A forma como a Mariana fala tem sempre um tom de preocupação com a liberdade que devemos ter para nos sentirmos tristes.



A maioria dos seus trabalhos são feitos por encomenda, mas nos pouquíssimos intervalos vai desenhando e pintando para si própria. Há algum tempo que quer lançar um livro sem texto, só ilustrado por si. Ainda não tem data de lançamento e a Mariana está à procura de editora.


As suas ilustrações dão-nos uma espécie de conforto por sabermos que não estamos sozinhos no nosso sentimento e essa empatia que sentimos quando olhamos para os seus desenhos está em harmonia com a sua forma de conversar, com a sua casa e até com a cidade em que vive. Este atelier é a casa e o espaço de trabalho da Mariana, mas quando passamos a porta estamos a entrar no espaço miserável de cada um de nós.




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