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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

TOMÁS COLAÇO e SOFIA AGUIAR



Em Xabregas fica o atelier do Tomás Colaço (1974) e da Sofia Aguiar (1963) - o GRILO.

O Tomás tinha-me dito que estavam a mudar o espaço; podia visitá-lo de qualquer modo, que iria gostar. As minhas expectativas eram elevadas. Assim que cheguei, deparei-me com um portão de garagem entreaberto. Entrei por ali dentro e estava num enorme espaço, praticamente vazio, com uns sofás ao fundo e uma banheira.

Entretanto chegou uma rapariga que me levou por umas escadas até a um sótão ainda maior que a garagem por onde tinha entrado.

À entrada, enormes tapetes cobrem o chão e a banheira serve de mais um
sítio para arrumações.

No primeiro andar, cinco ou seis pessoas trabalhavam no atelier.
O Tomás acenou-me do fundo da sala, enquanto transportava umas tábuas. 'É que estou a mudar o meu atelier, como te tinha dito; antes era ali atrás, agora estamos a remodelar o outro lado. Isto era tudo mato - pusemos aqui duas cabras e elas fizeram a limpeza principal. Agora é a nossa vez de dar conta deste casarão'.



Chegaram ali há um ano e detestam ficar muito tempo no mesmo sítio. 'Adoramos mudanças, começar tudo de novo numa casa sem nada, sem mobília', dizem. Sem dúvida que gostam da casa cheia e ambientes imponentes. Os seus ajudantes são jovens voluntários que vêm de várias partes do mundo: em troca de alojamento e alimentação, ajudam na manutenção da casa, do jardim e em pequenas obras. 'Temos tido experiências óptimas. Organizam-nos esta casa enorme - temos muitas coisas que encontramos no lixo e coisas que restauramos. Somos acumuladores, está à vista. Mas tiramos o máximo partido disso, que é comum a ambos.'

Não há como não ficar impressionado
com os pequenos objectos que a Sofia tem na sua zona de trabalho.
Desde agulhas, a tenazes ou pequenos insectos, a conversa vai sendo puxada
por cada história de cada objecto.

Eram 9.30h e o Tomás estava muito enérgico, transportando coisas de um lado para o outro, indo lá fora, regressando, dando dois dedos de conversa, sentando e levantando a cada dez minutos, entre telefonemas. A Sofia é uma pessoa mais calma: 'antes das dez e tal, o meu cérebro está a acordar. Gosto de me sentar, ver o que tenho para fazer, tomar o pequeno-almoço descansada e não me mexo muito até ter acordado completamente'. Também gosta de trabalhar mais recatada que o Tomás. Fecha as cortinas do seu pequeno espaço e fica recolhida por lá. 'Não é que o nosso trabalho não se contamine, claro que isso acontece, mas ele trabalha com os braços abertos, eu trabalho mais pequeno'.

'Estas agulhas eram aquelas que contaminavam os soldados com hepatite.'
'O meu trabalho lida com aquilo que atrai ao mesmo tempo que repele. Por isso é que monto gabinetes de curiosidades, pinto insectos e compro cabeças de animais embalsamadas. É disso que se trata: vemos, mas não queremos ver, então vemos com mais atenção, com mais detalhe, ao mesmo tempo que viramos a cara. Isto tem absolutamente a ver com a minha vida até agora, com as profissões que tive antes.'


A Sofia trabalhou em serviço social, fez grupanálise e foi jornalista. 'Era muito interessante, a psicanálise. Como era em grupo, havia pessoas de todo o tipo. Às vezes as sessões centravam-se só à volta de uma pessoa, outras vezes, discutiam-se assuntos que eram comuns a todos. Aprendi a observar e ao mesmo tempo a falar quando é pedida a minha opinião, quando é necessário intervir. O grau de atenção é máximo enquanto as considerações se tornam acessórias'.


O espaço do atelier exclusivamente da Sofia é um pequeno quarto com um colchão no chão e algum material. 'Apesar de adorar cá estar, vamos frequentemente ao norte de África, onde passamos temporadas. Encontro lá muitas das coisas que acabo por usar em trabalhos. E a minha relação com aquelas pessoas é estreita. Uma coisa que me impressiona muito é a condição da mulher - também cá, mas essencialmente lá. Por isso quero que se sinta e saiba que o meu trabalho é feminino. Não lhe chamo feminista; é feminino, feito por mim que sou uma mulher, pela Sofia.'


Esta medalha, a Sofia encontrou num cemitério. 'Fomos representar Marrocos na Bienal de Veneza. Aquilo é uma loucura e nós não estávamos no programa principal. As pessoas corriam para todos os lados, viam pavilhões atrás de pavilhões, toda a gente a stressar demasiado para o que o corpo consegue aguentar. Nós próprios, que fazíamos parte do programa alternativo, estávamos com os nervos em franja! Depois haviam convites para festas que não podíamos faltar. Não podíamos, mas ao final de um tempo, tudo se tornava aborrecido e repetitivo. Fomos fazer um piquenique num cemitério e foi lá que encontrei esta medalha, que guardei para usar em trabalhos.'

A sala contígua à sala onde a Sofia trabalha é a
parte do Tomás, que será mudada lá para fora, depois
das obras serem concluídas.
O Tomás é tão conversador como expansivo e sorridente. 'Já não consigo trabalhar aqui, vou para o outro lado. Do que gosto mesmo é de encenações, de criar cenários meio teatrais e dar isso às pessoas. É outro tipo de trabalho, não é o de ir para a galeria e mostrar pinturas em série. Eu gosto de transformar o espaço completamente'.


Não há como não pensar que a grande sala da entrada, com mesas postas, dourados e cadeiras pesadas é o backstage do trabalho do Tomás. Aquele é o seu atelier, que é o seu trabalho e que, pouco a pouco, se vai transformando em casa. 'Às vezes damos aqui jantares, cabe muita, muita gente. Pomos as mesas bonitas, com serviços completos, e fazemos todo o trabalho. Não me interessa filmá-lo, o registo é pouco relevante para mim. Interessa-me fazê-lo e que as pessoas possam usufruir. Este espaço torna-se mágico.'


'Vamos celebrar um casamento. A noiva veio ao nosso atelier e adorou-o - quis que o copo d'água fosse cá. E é um casamento grande, então temos que preparar isto para centenas de pessoas. Sabemos que é possível, temos que arranjar aquela parte lá em baixo, a garagem por onde se entra. Isto era um antigo armazém da Matutano e ainda está longe de estar completo. Mas sabemos que temos uma deadline e isso funciona para nós'.

A cozinha do GRILO recentemente remodelada
pela equipa de voluntários.
Interessa-lhes, sobretudo, levar os trabalhos para fora do ambiente artístico por definição. Por isso dão jantares, mesmo fora de casa, criam gabinetes de curiosidades, celebram banquetes e têm inúmeras histórias para contar. Ao final de sete horas de conversa, fiquei com a sensação que eu própria tinha participado numa peça de teatro - afinal, tinha estado sentada numa cadeira que é uma obra de arte pintada pelo Tomás, tão utilizável como qualquer outro objecto da sala. 

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